Opinião

Os prédios da penhora podem ser Repúblicas dos Estudantes

Adriano Botelho de Vasconcelos

Existem assuntos que se arrastam nos gabinetes dos decisores por muito tempo, ficam como se não tivessem pernas para andar. “Já vi o rosto da burocracia”, acreditem. Estive num gabinete que pode muito bem servir de exemplo de como é o rosto da burocracia que todos criticam, mas que continua pesada nas nossas vidas: só visto, eram os dossiers, pastas de arquivo, relatórios e folhas de ofícios, em altura de dois metros, sobre a secretária que escondiam um líder.

“Estás aqui?”, “Onde querias que estivesse?”, era sempre o início do diálogo até os visitantes encontrarem o seu rosto na desordem. Dava a impressão de que era no seu gabinete surrealista que parava a vida do país à espera do seu génio. Com tudo visto, tudo parecia um mundo secreto, cujas portas são os dossiers arrumados numa só pilha mais alta. “Os lunáticos nascem nesse ambiente”, concluiu o meu amigo Kaji. A atribuição do crédito ao estudante do ensino superior é daquelas medidas que já não deviam ter “barbas”. São acções que sempre marcam a diferença entre os países que se propõem a superar as suas fraquezas, mas, infelizmente, há muitos outros países que nem para aí estão virados. Uns fecham o assunto dizendo, sem diálogo: “Já temos as bolsas de estudo. Chega de um Estado assistencialista”. Fundamentam que as leis de uma economia gerida pelos anais da severidade orçamental ditam as regras de cada um por si, do salve-se quem puder, sem o estado social por perto.
A política nem sempre olha para o outro lado da vida. Os ideais exibidos na adolescência vão se afunilando na escassez de propostas arrojadas e exequíveis. O mundo está assim insosso, só mesmo a estreita visão burilada pelas agências de rating e de consultoria vingam e ditam o “que” e “como” e “quando” fazer. Seus relatórios e balanços substituem os valores programáticos dos partidos. É um risco? Não sei se descambamos para esse labirinto, mas uma coisa é certa, ganham poder de influência e sacam dos países biliões de dólares através das suas ramificações pelo mundo afora. Raramente permitem que exista uma visão das inteligências nacionais que sejam capazes de apresentar outros processos de arrumação da economia. O ex-Presidente Obama viveu sempre numa atitude em contraciclo, sempre soube que a solução da crise americana não estava nas mãos e receitas da Standard & Poor's, agência que tudo fizera para castigar a liderança democrática. Rebaixou, em Agosto de 2011, a nota de crédito soberano, de AAA para AA+, quase lixo para uma potência. “Não importa o que uma agência possa dizer”, desvalorizou. Venceu. A Nigéria tem uma senhora de nome Ngozi Okonjo-Iweala. Economista, é só considerada uma das mais influentes nos tempos que correm, mas infelizmente não conseguiu endireitar as contas para o forte desenvolvimento do seu portentoso país. É como se o seu saber fosse sugado por uma escuridão de grandes profundezas.
A Elisa é uma jovem que saiu do Namibe quando faltavam dez meses para chegar aos 18 anos, e foi para Luanda. “Eu chorei”, teve de lutar contra a cidade grande, para, pelo menos, manter a sua visão do mundo. “Sentia que a cidade me oprimia entre os seus muros altos”, confessou. “Até para viver sem apertos são precisos esquemas”, não foi fácil. Esteve sempre na linha da desistência. Com lágrimas nos olhos pequenos, mil vezes tentara deixar para trás o sonho de ser médica. Mas os pais, mais donos desse sonho do que ela própria, gastaram milhares de saldos da telefonia móvel para a manterem erguida e no bom caminho. Faziam de tudo para demovê-la da desistência, do que chamavam a “oportunidade” de sua vida. “Filha, aqui não está o teu futuro, serás uma simples professora primária”, alertavam os pais com sermões que terminavam muito para lá da meia-noite. “Não desistas”, pediam em coro. Os bens que deixara, parecendo nadinha, pobres quando deles se serviu, tinham agora um outro valor de oiro que só agora sabe reconhecer: O chuveiro, a cama com colchão de molas e medidas para duas pessoas, as colchas e lençóis brancos comprados na Namíbia, a boneca de cabelos ruivos colocada no centro da cama para enfeitar e a madorra das coisas. “Não, não tinha nada a ver com o colchão de espuma malcheiroso”, um cheiro nauseabundo devido ao calor que caía do tecto de zinco de pé baixíssimo. “Luanda parece a boca de um fogão aberto depois do bolo feito”, explicava o que respirava de réstias de vento abafado. A boneca, Mery John era o seu nome, que sempre a acompanhou para todo o lugar, já não se distinguia no meio da cama, perdeu o valor decorativo, mais parecia evidenciar o sinal da velhice precoce que a condição rudimentar sempre amplia. “Adriano, eu já não a penteava, eu estava contra o projecto dos meus pais”. Tinha o WC distante, num canto do quintal abarrotado de quartos alugados aos jovens deslocados das províncias e já não se sentava na sanita para ler um conto ou texto de anatomia: “Muitos surtos de disenteria, e infecções urinárias, era difícil mantermos a higiene”, muitos não tinham uma cultura cuidada de uso.
“Não sei se não sofreremos de cólicas”, interrompeu a Márcia, finalista de Economia. “O nosso corpo foi respeitando a nossa ordem de poucas vezes usarmos o WC”, uma gargalhada. E quando por coincidência mais de um estudante tivesse que tirar a água dos joelhos ou defecar, “usávamos as latas de leite Nido”, onde os dejectos permaneciam.
“E o cérebro?”, interrompeu o António Dembele, um jovem do Soyo. “Ah, é sobre a tua velha teoria de que o calor que cai dos tectos baixos corrói e amputa parte do nosso cérebro”, explicara a futura economista muito decidida em seguir os passos da nigeriana. Tem lido as suas obras, “sempre impressiona”, realça o facto mostrando pela capa o livro. O seu quarto pequeno, de três passos, tem os livros muito bem arrumadinhos no chão sobre estrados, igual zelo de arrumação só mesmo os diversos postiços que usa como chapéus alinhados por cima da cabeceira de almofadas encostadas à parede rugosa, sem a cal que a deixasse muito lisa.
Num dia de muito silêncio no meu telemóvel, até parecia que por combina os amigos se tinham esquecido de mim, recebi uma chamada agradável da Elisa. “Terminei o curso de Medicina, fiz o estágio com a maior nota. Agora podes ser o meu doente”, rimo-nos. “Eu, entregue às tuas mãos de caloira, vou morrer” e ripostou: “Também tu desdenhas os provincianos? Não acreditas nas minhas pestanas queimadas?”, desfiz logo o lado hilariante. Ainda assim, já médica, com tudo para não pensar nas jovens que são deixadas pelos pais na grande cidade, pediu para que eu fosse capaz de escrever sobre a necessidade das residências para os estudantes: “Adriano, vou ser directa, o Executivo ficaria bem se tornasse os prédios do Eixo Viário, ou um outro qualquer das penhoras, em “Repúblicas de estudantes”, até para que as jovens das províncias possam concluir os cursos com o cérebro completo, fora das espeluncas”, sorriu.
Quando, numa reunião importante, alguém se entreteu em dizer que lhe era muito difícil diferenciar uma “bolsa de estudo”, já em vigor, “com provas dadas”, de um crédito ao estudante do ensino superior, “uma ideia de risco e obtusa”, classificou, eu abanei demoradamente a cabeça e preferi o silêncio. Não temos como não acreditar que todos os países africanos terão de saber que políticas de “créditos” irão lançar para que os seus jovens façam o curso, sabendo que mais tarde devolverão os valores disponibilizados.
As condições sofríveis já concorrem para a destruição de muitos sonhos, é verdade que o sonho da médica quase fora destruído. Interessa que uma ou duas medidas inspiradas pelo jovem que ainda vive dentro de cada decisor, possam sobreviver às ordens das agências de rating, ou, infelizmente, ao desprezo pelos que mais precisam.

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