Opinião

Os riscos do retrocesso

Arlindo dos Santos

Os recentes acontecimentos no país trouxeram à tona o escândalo promovido pela investigação “Luanda Leaks”, que uns tantos tristes e bisonhos já ousam contestar. Uma lástima. Tristeza não tem fim, cantou Vinícius de Moraes! Os envolvidos no saque bárbaro e seus defensores oficiosos reagiram.

Sem vergonha, desenvolvem teses de perseguição política, de caça às bruxas e até de práticas de racismo. Tudo farinha do mesmo saco, insistem na teimosia, as claques organizadas. É de bradar aos céus! No meio do alarido feito por essa esquisita opinião pública, interessa-me apenas ressaltar que, apesar do pessimismo dos espertos de sempre, a Justiça angolana, com todos os seus condicionalismos, esteve bem. E tem estado bem, tanto na actuação cuidadosa, como no método de regeneração da sua imagem que vai levando a cabo. É um processo difícil que tem que seguir caminho. É uma rota na qual se vai encontrar um sinal a dizer, “proibido o retrocesso”.
Quem estiver atento ao processo em curso, verá que se torna impossível o recuo neste andamento. Porque só ele poderá conduzir o país ao sucesso e a um porvir de esperança para a democracia e para o povo. A hora da verdade, mais cedo ou mais tarde, surgirá. Queiram ou não os arautos da desgraça angolana. E se a Justiça, contrariando a legião de detractores, segue, sem vacilar, o seu rumo, capacitando, credibilizando quadros e adoptando as melhores estratégias de actuação, é natural que, e tendo em vista o novo rumo, os demais sectores devam acompanhá-la nos seus passos. Aliás, já há vestígios, embora ténues, de novas formas de caminhar noutras áreas da Administração Pública. Infelizmente não em todas, o que é perfeitamente natural neste complicado contexto.
Tenho o hábito de me esforçar para que nas peças que escrevo, o sentido das minhas palavras seja sempre de fácil dedução. Por isso, por me ditar a minha consciência e na defesa do desenvolvimento real da nossa terra, manifesto preocupações tanto pela escassez como pela qualidade técnica do pessoal que é chamado a assumir determinadas áreas, inclusivamente para tomarem assento na hierarquia de topo de alguns ministérios. Do meu ponto de vista, existem alguns a mostrarem carências enormes. Da base ao topo. E a questão é tanto ou mais preocupante quando essa falha se regista em sectores onde a importância dos serviços que prestam é inegável, justamente porque trabalham na preparação e elevação social das pessoas e na aquisição do conhecimento pela população angolana.
Não sou bom gestor de silêncios e por isso, sou obrigado, em defesa dos meus princípios e dos valores da cidadania, a vir a terreiro para afirmar que há premente necessidade de se recrutar gente melhor preparada para gerir e administrar áreas sensíveis e catalogadas como sendo da maior importância para o desenvolvimento de Angola. Ora, dando-se, como se têm dado, passos tão relevantes no domínio da Justiça, da economia, dos recursos minerais e das finanças – para citar apenas esses e não obstante as permanentes críticas que caem sobre tais sectores – não se pode laborar sistematicamente no erro de se cavarem desequilíbrios de resposta tão flagrantes entre os deficientes sectores e o restante do Conselho de Ministros. Os desafios específicos de cada ministério ou secretaria têm que ser atendidos com capacidades. Começa a tornar-se incómoda a evidência das fragilidades e a inexistência de estratégias nessas estruturas da governação do país. A população está atenta, cada vez mais preparada para detectar erros e posturas, e por isso reclama e exige melhorias palpáveis, para que a nossa rota para a frente seja efectivamente de êxitos.
Vem a propósito dizer que li há dias num jornal português, matéria interessante que, sendo essencialmente do foro do desporto, nomeadamente do futebol, pode ser perfeitamente aplicada à questão que abordo. Trata da competência das pessoas, melhor, da sua incompetência. De facto, e analisando o tema do artigo à luz da nossa realidade, sou obrigado a concordar que se um piloto é proibido de aterrar em determinado aeroporto por não ter o número de horas de voo exigidos pela lei devidamente certificadas; se os indivíduos que têm a carta de condução de ligeiros estão proibidos de conduzir veículos pesados; se usarmos a lógica dessas questões para as comparar com actos danosos à governação, é legítimo ponderar-se se os titulares de determinados cargos estão ou não capacitados para os ocupar. Na primeira linha de aferição estão os que tratam o desenvolvimento humano e social, matéria reconhecidamente fundamental para a trajectória de vida das pessoas. A imprudência de uma nomeação pode conduzir-nos a erro grave de difícil reparação. Os caminhos que estamos a percorrer hoje, minados e armadilhados em todos os becos e esquinas, não nos permitem correr escusadamente os riscos do retrocesso.

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