Opinião

Os flagelados do Kilamba e do Zango

José Luís Mendonça

As chamadas centralidades  do Kilamba e do Zango, que muitas bocas de elogios ao desempenho do Executivo fizeram estampar nos media e cujas imagens correm mundo como símbolo da reconstrução nacional, estão hoje dominadas por uma calamidade pública: a poluição musical sonora.


Geralmente, uma calamidade diz-se pública, quando tem origem natural e  o governo não está à altura de resolver, por si só, os estragos provocados, apelando, por isso, à solidariedade e à ajuda internacionais. É o nosso caso.
No tempo em que o governador de Luanda era o general Higino Carneiro, alertámos para o fenómeno da degradação do direito humano ao repouso e aos tempos livres, na centralidade do Kilamba. O então governador exonerou o presidente do Kilamba, Israel Baltazar, e substituiu-o por João Baptista Domingos.
Ora, dessa dança das cadeiras nada de positivo resultou para os moradores da centralidade mais afamada de Angola. O problema consiste no facto de um “empresário” de espectáculos, desses “empresários de meia tigela” que proliferam por todo o país, ter sido autorizado a instalar uma dezena de colunas com três metros de altura no terreno descampado que fica situado a Leste da centralidade, e ali fornece som com um volume fragmentador dos tímpanos de qualquer mortal deste mundo. Aos fins-de-semana ninguém repousa. Até à data, o flagelo continua. Quer dizer que o novo presidente que ninguém conhece na centralidade, o Sr. Domingos, também não tem poder, ou não quer, para libertar os moradores do Kilamba desse flagelo. Daí considerarmos o ruído estrondoso uma calamidade pública.
Na semana que findou, um amigo meu, morador na comunidade Vila Pacífica, no Zango Zero, mandou-me, pelo WhatsApp, a mensagem que abaixo transcrevo, ilustrada com vídeo e tudo: “A vida  nesta comunidade deixou de ser pacífica, pois este clube (House Lepejo) tem infernizado a vida dos moradores com festas frequentes e diversas, mas com um denominador comum: música em insuportáveis decibéis (até os vidros de casa estremecem!) 24 sobre 24 horas, sem o mínimo respeito pelos habitantes do condomínio. Por várias vezes, a polícia foi chamada, mas as festas continuam para desespero dos que passam as noites de fim-de-semana em branco. ’A minha liberdade termina onde...’”
Exo. Sr. Governador de Luanda,
A Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, assinada em 1948, consagra o direito ao lazer como um dos direitos fundamentais para qualquer ser humano, um acto vital para a preservação da boa qualidade de vida do trabalhador, como vem destacado no Artigo XXIV: “Todo o ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.” Sendo o direito ao repouso um direito fundamental do Homem, deve ser protegido pelas autoridades. E sendo o Senhor Adriano Mendes de Carvalho a autoridade máxima da província, é a si que cabe a responsabilidade de garantir a todos nós, que trabalhamos para o bem comum, esse direito inalienável.
Peço-lhe, pois, Sr. Governador, que ponha ordem neste circo. Ou, perante a notória incompetência do Estado perante este flagelo, esta calamidade pública, devemos  pedir à IMOGESTIN, a quem os moradores das centralidades pagam as rendas, que nos lance uma tábua de salvação?
É que o flagelo do barulho altissonante inunda todos os bairros de Luanda. É barulho por  tudo quanto é canto, excepto nos locais onde residem os nossos dirigentes. Estes têm segurança e paz para repousar. Daí que sugiro ao Sr. Governador que organize um fórum público, com a participação de órgãos do Estado e da sociedade civil e política, desde associação juvenis, igrejas, ministérios da Família, da Habitação, partidos políticos  e a Ordem dos Médicos, para avaliar a dimensão social, politica e sanitária do flagelo (há danos auditivos patentes nas crianças) e encontrar uma solução, nem que seja regulamentar o volume do som nas festas, porque é um exagero, mesmo em festas de casamentos e em recintos fechados.  Os DJs estão loucos da cabeça!

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