Opinião

Os males da iliteracia

Isaquiel Cori |

É a iliteracia um dos maiores males que afectam parte da humanidade. Definida grosso modo como a incapacidade de alguém apreender, compreender e interpretar correctamente o que lê, ouve ou vê, a iliteracia está por trás de acidentes profissionais que chegam a redundar em mortes, mal entendidos que mancham relações pessoais, equívocos relativamente ao conhecimento de fenómenos básicos da vida e é uma das principais causas do preconceito e do boato.

Exemplos comuns de iliteracia são o da pessoa que lê uma notícia no jornal e não a consegue explicar ou o faz com elementos estranhos ou contrários aos constantes do texto. Quantos de nós não se deparou já com a situação em que ouve algo no rádio ou na televisão com uma ou mais pessoas e depois tem de explicar a todos o que todos acabaram de ouvir e/ou ver?
Outra coisa há que dizer: a iliteracia está, de modo insidioso, na base da falta de hábito de leitura, pois como é possível gostar de algo que não se compreende e de que não se tira prazer? O modo insidioso é para aqui chamado porque a falta de hábito de leitura está também, reciprocamente, na base da iliteracia. Uma coisa tem a ver com a outra e acabar com uma significa igualmente acabar com a outra.
A iliteracia tem consequências sociais e políticas graves, quando mantém no preconceito e no obscurantismo parte significativa da população, que fica incapaz de distinguir até mesmo as notícias grosseiramente falsas das verdadeiras e passa a fazer juízo da política e dos políticos com base em boatos e numa percepção distorcida da realidade.  A situação da iliteracia tem também o condão, em última instância, de determinar a qualidade das escolhas por altura da chamada ao voto.
É no campo estrito da literatura que a iliteracia produz consequências mais subtis mas profundamente mais nefastas, ao impedir ao cidadão a possibilidade de tirar o maior gozo estético das grandes criações de autores nacionais e estrangeiros. Cercado por uma realidade deprimente de frustrações e sonhos permanentemente adiados, o cidadão que padece de iliteracia está completamente alheio à cultura que repousa nos livros e a que, se ele acedesse, lhe diria de outras vidas em outros lugares do mundo, neste ou em outros tempos, que encararam situações semelhantes e superaram-nas.
A cultura, que prolonga a nossa vida nas vidas de outros, vivos, mortos ou imaginados, é um bálsamo que alivia as dores do existir e tira-nos a ilusão da solidão. A leitura de um bom romance, a primeira coisa que nos diz é que não estamos sós e que somos importantes, pois é a nossa leitura que dá vida aos personagens e ao seu mundo romanesco. Até podemos adoptar tais personagens e incorporá-los na nossa vida como exemplos supremos da bondade ou do seu contrário, a maldade.
Para mim, não há nada mais escandaloso do que alguém ler “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & Eu”, de Luandino Vieira, “Mestre Tamoda”, de UanhengaXitu, “O Cão e os Calús”, de Pepetela, “1 Morto e os Vivos”, de Manuel Rui, “Maio, Mês de Maria”, de Boaventura Cardoso, “Undengue”, de Jacinto de Lemos, “Kafuka-fuka - Crónicas do Areal”, de Salas Neto, só para citar alguns mestres, e não soltar, a dado ou a todo o momento, sonoras gargalhadas. Não reagir assim é sinal preocupante de estado avançado de iliteracia, aquele em que o suposto leitor não é capaz de discernir sequer a ironia.

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