Opinião

Os nossos médicos

Adebayo Vunge

Nos últimos tempos, tornei-me num telespectador afeiçoado por algumas séries, sobretudo aquelas que retratam a vida hospitalar. A sétima arte e a realidade ou a sétima arte e a ficção científica têm andado de mão juntas e revelado os grandes avanços da medicina. É assim, por exemplo, em séries como Anatomia de Grey, cuja realidade faz-me muitas vezes meditar sobre o que se passa connosco.

Há algumas semanas, uma família amiga viveu o drama de um diagnóstico médico errado. O patriarca da família recebeu um diagnóstico duplamente errado. Foi-lhe dito que padecia de um cancro e dada a sua idade, ninguém ousou questionar o que lhes foi dito em duas unidades hospitalares de referência em Luanda.
Sem dúvidas de que o diagnóstico estivesse errado, o meu amigo e a sua família juntaram uns tantos dólares – todos sabemos quão difícil continua o acesso às divisas não obstante as melhorias da situação se comparada aos apertos de 2016 e 2017 – e lá embarcou para a África do Sul, com o kota, na ânsia de encontrar novas terapias.
Postos ali, com os resultados das suas análises e o diagnóstico que levavam, ocorreu-lhes o que um destes falsos profetas aproveitaria chamar de milagre. Destes que andam por ai a aproveitar-se do sofrimento e iliteracia do Povo, extorquindo-os até no pouco que lhes sobra. Num primeiro momento, o médico preferiu não assumir peremptoriamente, mas mostrou-se muito reservado ao que foi identificado pelos nossos médicos. Refez os exames e veio então a certeza, para grande alívio do “meu tio” e de toda a família. O diagnóstico estava errado apesar da qualidade e tecnologia avançada disponíveis nas nossas unidades. 
Claro, abrimos champagne e celebramos a vida. Já alguém dizia que o objectivo da ciência hoje é descobrir a imortalidade ou o máximo prolongamento da vida. É o estágio civilizacional que estamos e daí que nunca a humanidade tenha tido uma esperança de vida tão elevada. E, felizmente para nós, desde 2002, os nossos números, a esse nível, aumentaram de modo substancial passando de 47 anos a 62 anos a esperança de vida à nascença.
O meu tio afim, pai do meu amigo, deixou a África do Sul deslumbrado com os avanços tecnológicos e mostrou-se radiante com o desenvolvimento económico e de infra-estruturas do País de Nelson Mandela, que vive fortemente assolado por problemas sociais herdados da segregação racial, como seja o desemprego e a criminalidade. 
Outra parte menos radiante deste drama é o facto de ter sido prescrita uma medicação,  não diria errada, mas antiquada. Segundo o médico que observou o «meu tio», trata-se de um medicamento desaconselhável há cerca de cinco anos e, no seu lugar, existem outras prescrições.
Sou filho de um enfermeiro e tenho uma irmã médica, para além de muitos outros familiares ligados ao sector da saúde. Tenho por estes profissionais um grande carinho, apreço e admiração. Imagino muitas vezes o que é viver um turno no banco de urgência em qualquer dos nossos hospitais. É tal a avalanche de pacientes que reconheço que os nossos médicos fazem muitos milagres e são verdadeiros heróis. Todavia, não posso aceitar erros humanos de palmatória, erros fatais. Em caso de dúvidas é preferível adiar a divulgação do diagnóstico, partilhar os casos com outros colegas. Mas o que é fundamental no exercício da medicina na era moderna é a sua actualização em relação aos avanços científicos e tecnológicos. 
Diante de graves culpas, deve haver noção da responsabilidade civil médica, ou seja, médicos, cirurgiões, farmacêuticos e outros especialistas são responsáveis e têm o dever de indemnizar quando, no exercício desta actividade profissional, por negligência, imperícia ou imprudência, provocarem danos e ou morte dos seus pacientes. Devem por isso, agir com maior zelo.  
Os médicos devem beneficiar de formação, melhoria e acompanhamento das diferentes instâncias: universidades, ordem dos médicos, Ministério da Saúde e das próprias unidades hospitalares. Para além da entrega e devoção, é importante que os médicos e todo o pessoal médico trabalhe em prol desse desiderato: salvar vidas, o máximo de vidas e não os lapsos de diagnóstico e profilaxia de algumas doenças, como o cancro que supostamente assolava o meu tio. Não quero imaginar o que seria se tal viagem não tivesse sido feita.
Esta é certamente uma gota no oceano em relação ao mar de situações que ainda enfermam o sector da saúde, revelando-se um imperativo a melhoria e maior qualidade dos seus serviços, de Cabinda ao Cunene. O investimento nestes serviços é vital para a melhoria da qualidade de vida. Investimento com o que lhe atinge directamente como o saneamento básico e a educação, para além de si mesmos em mais hospitais, equipamentos, medicamentos e pessoal especializado. De resto, o trabalho feito recentemente pela médica espanhola Elena Barraquer confirma também que nem sempre a ausência de dinheiro explica tudo, falta-nos organização, uma abordagem sistémica e pensamento estratégico para a cura de alguns dos nossos males. E que o exemplo de mecenato vindo da Oshen Healthcare e ABO Capital seja seguido por outras empresas. A pedra basilar é o homem. O pessoal bem formado e treinado fará a diferença, muitas vezes, mais do que o equipamento.

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