Opinião

Os porcos do Mussulo

José Luís Mendonça |

Há dias, passei um fim-de-semana no casarão que um amigo meu tem no Mussulo.

Carregámos toda a tralha necessária, sem esquecer o carvão para os grelhados, as caixas térmicas com os frescos e o gelo, as bebidas, os telemóveis e tudo quanto um cidadão trabalhador precisa para estar três dias fora do engarrafamento vicioso, da náusea do lixo que nunca acaba mesmo a pagarmos imposto, e dos passeios lotados de zungueiros de Luanda.
Descemos no embarcadouro perto da casa de um famoso general, desses que ficou general porque andou mesmo no kibidi e não apenas a assinar papéis. Alugámos os serviços de uns zungueiros (ah, afinal, lá já tem zungueiro igual ao da outra banda) para nos transportarem as imbambas até ao kubiko da praia. Como já não ia ao Mussulo há uns bons dez anos ou mais – descri da ilha quando o mar começou a ficar poluído com a gasolina das motas de água – apanhei a segunda desilusão da minha visita àquele território descaracterizado pela invasão do betão dos edifícios de dois a três andares ali erguidos. A minha segunda desilusão, depois da poluição do mar, foi ver a poluição ambiental da praia e seus arredores.
A casa de praia do meu amigo dista do embarcadouro uns bons mil metros. Pois, para lá chegarmos, entrámos por alguns becos iguais aos do Tunga Ngó do musseque. E todo o percurso foi percorrido a pisar excremento de porco. Os ngulos eram uma família, composta de mãe (acho que o pai já devia ter ido à faca) e cinco filhotes, que estavam ali no meio do caminho a chafurdar num montão de lixo.
Quer dizer, o Mussulo já está igual a Luanda, mas mais virado para o musseque, do que propriamente para a parte nobre da cidade. Um carro já não passa até à casa de praia do meu amigo. O dono dos porcos é um cantineiro que montou uma casa rudimentar com tecto de chapas, sem quintal, com um gerador avariado no parte lateral, onde os porcos dormem. Na parte da frente, tem uma espécie de galinheiro com tábuas mal amanhadas.
Fiquei estupefacto.
Lá consegui vencer a náusea que aquela imagem me provocava, ao entrar no casarão, sentar-me à mesa grande do quintal e degustar um pequeno almoço de banana-pão assada, ginguba torrada  e um chá de moringa.
Depois fui à praia, tendo de assistir ao mesmo cenário horripilante dos ngulos a chafurdar no monte de lixo. No quintal da casa ao lado do lixo, uns jovens deliciavam-se com champanhe numa piscina. Tudo o que está dentro dos espaços de habitação parece que nos preserva dos horrores causados pela ausência da Administração do Estado no Mussulo.
A água do mar estava cálida, de fazer inveja aos europeus que ali podem deixar-nos algumas divisas, se vierem a turismo. Quando estive em Cabo Verde, reparei num grupo de trinta turistas alemães, todos reformados, a deixarem parte do salário da reforma na Ilha de São Vicente.
Nós, na nossa Ilha do Mussulo, não devemos atrair lá muitos turistas, principalmente reformados alemães que primam pelo asseio e o atendimento das suas necessidades. No Mussulo, ainda falta muito investimento. Fez-se ali o mesmo que se fez por toda a Luanda: abandonou-se o crescimento dos aglomerados habitacionais ao bel-prazer de cada utente dos terrenos. Não houve planificação urbanística. Até agora, não se nota a presença da Administração do Estado. O Mussulo parece uma zona ocupada, já não pela insurgência armada, mas negligência de quem devia governar efectivamente.
Ontem, o meu amigo me convidou para o réveillon na casa dele no Mussulo (agora dizem “a virada”, porque estamos a ficar culturalmente quase todos brasileiros e americanos).
Claro que declinei o convite. Não estou para entrar em 2018 a pisar cocó de porco!

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