Opinião

Os “porreiristas” e os “manifesteiros”

Eduardo Magalhães |*

Oito meses depois do início da governação do Presidente João Lourenço, ninguém, honestamente, tem dúvidas: as mudanças são sérias e vieram para ficar.

 Espera-se que, a partir de Setembro, quando ele assumir também a liderança do partido maioritário, essas mudanças possam ser aprofundadas.
A maioria da militância do MPLA deseja, para isso, que o futuro presidente do partido renove igualmente a organização, tal como está a renovar o Estado e a governação. Isso é fundamental para o MPLA. No momento histórico que vivemos, é o MPLA que, se quiser continuar no poder nas próximas décadas, tem de se alinhar com o pensamento, o estilo e a prática do presidente João Lourenço e não o contrário.
São perfeitamente compreensíveis, por seguinte, as reacções de todos aqueles que estão a ver os seus interesses a ser postos em causa e, sobretudo, as condições para a continuidade das suas velhas práticas, danosas para o Estado, a nação e o próprio MPLA, serem eliminadas.
Entretanto, há outro fenómeno político recém-detectado entre nós: o radicalismo pretensamente de “esquerda” e o falso vanguardismo, que mais não passa de uma tentativa de protagonismo, baseado no velho ditado segundo o qual “em terra de cegos, quem tem um olho é rei”.
Usar essas classificações da ciência política – “radicais de esquerda” ou “vanguardistas” – para caracterizar o fenómeno a que me refiro talvez seja demais. Os seus protagonistas devem ser designados, mais apropriadamente, “porreiristas” e “manifesteiros”.
Com efeito, uma certa “malta porreira” existente entre nós, alguma da qual bastante vocal, com acesso à media e gozando de uma relativa simpatia internacional, parece não perdoar nada ao presidente João Lourenço, não só exigindo todas as mudanças da noite para o dia, mas até defendendo certas transformações claramente excessivas, esquecendo-se que, em política, o timing é fundamental, e que as reformas devem ser feitas de maneira a manter e reforçar a estabilidade e a coesão sociais, impedindo que o poder caia na rua. Políticos, intelectuais e líderes de opinião responsáveis precisam de conter essa tentação simplista.
Os “porreiristas” tendem, pois, a exagerar nas críticas – escritas, verbais ou gráficas – que fazem à actual governação, algumas delas tocando o desrespeito e mesmo a ilegalidade, ignorando que isso pode ter, como consequência, reforçar os sectores conservadores, que querem frear ou interromper as mudanças, a começar pelas que estão a ocorrer no sector da comunicação social. O que é mais sintomático é que os “porreiristas” acusam todos aqueles que lhes chamam a atenção para os seus excessos de serem supostamente “comprados”, o que diz tudo sobre a sua verdadeira vocação “democrática”.
Uma categoria particular, dentre essa “malta porreira” que se consideram os únicos “democratas”, são os “manifesteiros”, ou seja, os “organizadores profissionais de manifestações”. De facto, e de acordo com as últimas informações, as manifestações que têm ocorrido em algumas capitais provinciais não são de iniciativa local, mas do grupo dos chamados “revus”, todos residentes em Luanda. Isso mesmo disse um deles na semana passada à TPA, a propósito da manifestação ocorrida em Mbanza Congo.
Como é óbvio, nada disso é ilegal. Mas, politicamente, tem uma leitura, na verdade previsível: há grupos que estão apostados, por diferentes, mas cruzados e entrelaçados interesses, em enfraquecer a governação do Presidente João Lourenço.
No caso particular dos “revus”, que apenas ganharam notoriedade nacional e internacional por causa da deficiente gestão política do caso feita pela governação passada, podem tirar o cavalo da chuva, por duas razões: em primeiro lugar, e a avaliar pelo pensamento político demonstrado pelo presidente João Lourenço, o governo actual não cometerá o mesmo erro do anterior; em segundo lugar, o governo, ao contrário do que acontecia no passado recente, não está a esconder os problemas existentes em todo o país, mas também está a fazer esforços generalizados para resolvê-los, comunicando cada vez melhor as medidas em curso.
A população – que se revê cada vez mais na imprensa pública – sabe disso. Não precisa, pois, da “condução iluminada” de ninguém, mesmo que se trate de “malta porreira” ou “revolucionários profissionais”. Os bons sinais que começam a surgir no domínio económico também ajudarão a esvaziar o discurso populista, demagógico e radical.

* Director de Comunicação Institucional. A sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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