Opinião

Os sonhos da Madó

Rui Ramos

Manhã manhãzinha começam as histórias e elas nascem mesmo antes do Sol aparecer com o seu calor rápido rompendo o tórrido solstício de Dezembro.
É ainda de noite quando a Madó acorda já sem se recordar do Huambo, com objectivos muito claros na cabeça indormida. Acorda, é maneira de falar, porque o sono é tipo pisca-pisca e a compra do pão lhe encontra ainda antes de deskibuzar.

Madó já foi jovem mas desjovenou no Kicolo, mãe lhe trouxe do Huambo nos tempos da destruição aterraram ali e entrou direito na venda de tudo. Como corpo rompia lhe assediaram se entregou num homem começou a saga um filho um homem e filhos sem pai para não variar. 
Um dia foi tratar documentos e olhou no largo aqui talvez pode vender sandes, construiu sonho.
Então começou os vinte ainda não tinham chegado na sua paragem, investiu primeiros kwanzas na compra de ketchap e maionese fora de prazo no próprio Kicolo comprou a primeira caixa de conchas de galinha.
Madó se fez coragem. Kicolo para o largo perguntou nas vizinhas táxi para São Paulo São Paulo para Mutamba Mutamba a pé.
Madó contou 300 ida 300 volta. Minha mãe!
Empreendedorismo é assim, faz contas, investe, sofre.
Madó foi na primeira madrugada carregada de sandes de concha frita no olé amarelo-escuro.
Madó cumprimentou os empreendedores se tinham já antecipado na ocupação procurou pedra se ajeitou lhe doeu no cu grande pôs pano e fez habitação no antigo e novo largo  Serpa pinto. Pedra lisa, bem bonita, parece sofá de receber visita. 
Ali Madó começou a vender na tarde fez as contas tipo ministro das Finanças cabimenta verbas nos projectos.
Madó, sobrou dinheiro, isso é bom, as contas ainda lhe custavam mas os olhos lindos sedutores da menina ainda na segunda dezena dos anos se abriram guardou bem os valores parece deu lucro a Humanidade lhe comprou todas as sandes.
 Objectivo da Madó passou a ser vender sandes no largo serpa pinto tipo potenciar a materialização do desiderato como ela às vezes ouvia na televisão. Potenciar potenciar. Todos os dias Madó deixava os dois canalhinhas na vizinha os moventes já comiam funje não precisa mais dar de mamar, Madó tirava umas moedas do lucro sustentável e pagava na vizinha, isso sim, era empresa, só faltava nome assim tipo As Sandes da Madó, come e leva, até já gerava emprego na vizinha.
Madó lhe aconselharam numa prima mais velha a estudar e Madó pensou pensou pedra lhe achatando o cu. E se decidiu. Assim tipo conselho de ministros quando decide anuncia Madó se anunciou, vou.  Se decidiu. Se alfabetizou na noite da tarde já quase chegando nos vinte naquele curso dos cubanos eu posso. Filhos sem pai, renda de casebre dez mil queria pôr luz mas pt do general era cinco mil água desprópria só bacia na cabeça para inflamar a barriga.
Se encarou com pensamento e ficou séria.
Alfabetização foi comida. Madó escrevia e lia. Mais sonhos mais sonhos, na cidade. Madó vende na cidade, luxo, se comentavam vizinhas. Foi se informar na escola  e seu sonho se des-sonhou. Não tem vaga para aluno grande. Mas não desistiu, perguntou perguntou e encontrou escola participada com propina e se escolarizou sozinha no mundo tirou dinheiro das vendas para pagar propina todos dias 10 sem falta senão te xotam da sala.  
Quando terminou instrução primária os vinte já eram pôr do sol já era kota corpo lhe encheu só cu ficou achaatado da pedra quadro técnico especializado na venda de sandes, de saldos da unitel da movicel e até fez formação para kinguila, não esquece sou a tia Madó. Lhe aconselharam  numa vizinha sobrinha Madó porque não tira as cartas? Madó pensou, olhando jipes, motas, corolas, jaguares, prados, range roveres circulando o largo. Um dia Madó olhou o céu e perguntou no miúdo ardina esperto que um dia lhe deram boas chapadas nos secretos porque estava gritando ele roubou ele roubou. Perguntou Zito avião é tipo carro, tem pessoa lhe conduzindo, volante, pisca, matrícula? Zito ficou sem voz mas balbuciou vencido mamã avião até tem rodas. E se calou Madó lhe estragou o cómodo mental.
 Madó tirou as cartas no finzinho dos dias, comprou livro e começou a pagar as curvas e contracurvas. Instrutor lhe apalpou mas Madó  lhe disse não sou das suas confiança. Foi noutro instrutor, pessoa religiosa e cumpridora não lhe apalpou e lhe ensinou a guiar.
Madó tirou as cartas foi na viação só saía com micha. Porra, cantou Madó, até para entregar cartas tem michas filhos da caixa tirou valores das sandes para entregar micha no polícia para as cartas sair.
Terceiro sonho da Madó realizado, se recapitula: venda de magoga, alfabetização, instrução primária, cartas. Chega porque ter filho em Luanda não é sonho é pesadelo.
Mas é sonho sim festa de pedido com aluguer de salão toda a noite namorado oferecendo fatos completos nos tios com meia e lenço de seda... Mas qual homem vai aceitar já com dois filhos? Só caridade.
Madó sentada na pedra cu bem achatado olhou o antigo prédio da oliva e se eu tentar mais estudos? Sonhou levantou deixou amiga na venda  foi na escola púbica não tem vaga se não der micha foi no colégio propina porra afinal é assim?
Estacionou sua ambição. Mas ela viu ali perto no lado do bpc banheira com livros escolares. Comprou primeiro livro do tal primeiro ciclo. Escolheu. Matemática português história estudo do meio… Por onde  começar? Zungueira lhe aconselhou como você mexe em valores começa na matemática   mil paus e agarrou no livro com cuidado. E começou naquele dia novo sonho da Madó já no meio dos vinte. Vou dar uma boa vida nas crianças juro, pensou enquanto olhava nas equações do manual.
Madó já se formou na matemática e no português da sétima na escola de pedra já é um quadro da contabilidade até pode se inscrever na ordem.
Madó pegou no livro de matemática da oitava o da sétima já tinha lido todo é mil também.
Um dia um dia vou lá na escola e vai ter vaga. Mas o que fez rir rir o Zito foi quando ela lhe disse mano Zito um dia vou guiar avião vou tirar as cartas...
Sonho de casa próprio para lá de Cacuaco esse é fumo que voa.

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