Opinião

Os valores culturais e a violência doméstica

Correia Hilário |*

Cultura significa todo aquele mosaico complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, mas também no local de trabalho, na escola, etc.

As culturas têm muito a aprender umas das outras, os valores e até mesmo a linguagem mundial de uma determinada cultura sobre as outras não significa diálogo, mas imperialismo cultural. "A grande diversidade do mosaico cultural angolano implica a sua valorização permanente, pelo que ela representa para o reforço do sentimento patriótico, da coesão social e da consciência de uma identidade nacional. A internacionalização da nossa cultura, decorrente da globalização, é um desafio que temos para os próximos anos, sobretudo em domínios como a música, a dança, o livro, o teatro, o cinema, a moda e a culinária, que poderão agregar valor à difusão no mundo da cultura nacional" (Extracto da 1ª Mensagem sobre o Estado da Nação, proferida pelo General João Lourenço, Presidente da República de Angola, em Luanda aos 16 de Outubro de 2017).
O domínio cultural é um problema particularmente sério, quando uma cultura predominante transmite valores falsos, contrários ao bem genuíno dos indivíduos e dos grupos. Desta forma a Internet, juntamente com os outros instrumentos de comunicação social, está a transmitir uma mensagem imbuída dos valores da cultura secular ocidental a pessoas e a sociedades que, em muitos casos, não estão adequadamente preparadas para a avaliar e para lidar com a mesma. Daqui resultam problemas sérios - por exemplo, no que diz respeito à vida matrimonial e familiar, cuja instituição está a experimentar uma crise generalizada e radical em muitas partes do mundo.
Em tais circunstâncias, a sensibilidade cultural e o respeito pelos valores e credos dos outros povos são fundamentais. As culturas encontram no diálogo a salvaguarda das suas peculiaridades e da sua mútua compreensão e comunhão.
Os meios de comunicação social oferecem às pessoas o acesso à literatura, ao teatro, à música e às artes, que diversamente não lhes são disponíveis, e assim promovem o desenvolvimento humano no que concerne à ciência, à sabedoria e à beleza. Falamos não só de apresentações de obras clássicas e dos frutos da cultura, mas também do divertimento sadio popular e das informações úteis que reúnem as famílias, ajudam as pessoas a resolver os problemas quotidianos, animam o espírito dos enfermos, dos inválidos e dos idosos, e aliviam o tédio da vida.
A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores. Muitas vezes, o significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância intrínseca e validade. E frequentemente a popularidade está mais ligada com a celebridade ou com estratégias de persuasão do que com a lógica da argumentação. Às vezes, a voz discreta da razão pode ser abafada pelo rumor de excessivas informações, e não consegue atrair a atenção que, ao contrário, é dada a quantos se expressam de forma mais persuasiva.
O multiculturalismo é a convivência pacífica de várias culturas em um mesmo ambiente. É um fenómeno social diretamente relacionado com a globalização e as sociedades pós-modernas. A actual sociedade da informação é uma verdadeira revolução cultural. O processo de globalização pode criar ocasiões extraordinárias de maior bem-estar, mas ao mesmo tempo e até como parte disto, algumas nações e povos sofrem explorações e marginalização, decaindo cada vez mais na luta pelo desenvolvimento.
A nível internacional, a dominação cultural imposta através dos meios de comunicação social é também um problema sério e grave. Nalgumas partes as expressões culturais tradicionais são virtualmente excluídas do acesso aos "mass media" populares e ameaçadas de extinção; entretanto, os valores das sociedades opulentas e secularizadas suplantam os valores tradicionais das sociedades menos ricas e poderosas. Quando se consideram estas questões, deve-se prestar especial atenção em oferecer às crianças e jovens programas mediáticos que os coloquem em contacto vivo com a própria herança cultural.
É para desejar que a comunicação se verifique ao longo de directrizes culturais. As sociedades podem e devem aprender umas das outras. Mas a comunicação transcultural não deve ser em desvantagem dos menos poderosos.
Hoje,  "mesmo as culturas menos difundidas já não estão isoladas. Elas beneficiam de um aumento de contactos, mas também padecem as pressões de uma tendência poderosa para a uniformidade" (Papa Bento XVI). O facto de hoje tanta comunicação fluir numa só direcção — das nações desenvolvidas para os países em vias de desenvolvimento e pobres — levanta sérios problemas éticos. Os ricos nada têm a aprender dos pobres? Os poderosos são surdos às vozes dos frágeis? Em vez de promover o conhecimento, os "mass media" podem distrair as pessoas e fazê-las perder tempo. Desta forma as crianças e os jovens são particularmente prejudicados, mas também os adultos sofrem ao serem expostos a programas banais e desprezíveis. Por isso, "a municipalização dos serviços culturais continuará a ocupar um lugar de destaque, para assim alargarmos a formação artística e o conhecimento das raízes culturais angolanas. É preciso apostar na construção de centros culturais em todos os municípios, utilizando também recursos locais" (Extracto da 1ª Mensagem sobre o Estado da Nação, proferida pelo General João Lourenço, Presidente da República de Angola, em Luanda aos 16 de Outubro de 2017).
A produção da indústria cultural  é direccionada para o retorno de lucros tendo como base padrões de imagem cultural preestabelecida e capazes de conquistar o interesse das massas sem trabalhar o carácter crítico do espectador.  Os adolescentes são bombardeados com produções e marcas internacionais e as crianças estão à mercê dos desenhos infantis. Dessa forma, seria impossível a escola, ou os pais das crianças ignorarem os robots que falam, as naves espaciais que a todos fascinam, a capacidade de voar e de se transformar, a magia, o poder e o terror trazido pelos monstros e vampiros; as lutas do bem contra o mal nos desenhos animados, a violência mostrada nos noticiários. Alguns dos programas de TV apresentam constantemente valores questionáveis. Essas mensagens irão determinar como nossos filhos serão amanhã. Irão determinar sua honestidade, solidariedade, respeito e outros valores sociais.
Neste caso, podemos afirmar que, os meios de comunicação em massa devem contribuir para a valorização da diversidade cultural, a promoção dos direitos humanos, no combate a todo tipo de violência, no acesso à informação, entre outros.

A violência doméstica

Violência significa usar a agressividade de forma intencional e excessiva para ameaçar ou cometer algum ato que resulte em acidente, morte ou trauma psicológico. Portanto, violência doméstica é todo tipo de violência que é praticada entre os membros que habitam um ambiente familiar em comum. Pode acontecer entre pessoas com laços de sangue (como pais e filhos), ou unidas por um vínculo social: igreja, escola, etc... Daí que "É necessário continuar a proteger a família como o núcleo social onde se transmitem em primeiro lugar os valores éticos, culturais e morais mais importantes da sociedade. Que cada família se constitua num lugar de serenidade, de paz, de diálogo e de partilha de afectos. É também no seio da família que os jovens podem encontrar a confiança necessária para encarar o futuro com esperança e sentido de responsabilidade" (Engº José Eduardo dos Santos, ex- Presidente da República de Angola, in Mensagem do Fim de ano, 27 de Dezembro de 2012).
O papel da mulher na família alterou-se profundamente, tanto a nível económico – autonomia financeira feminina – como jurídica – deixou de existir o chefe da família –, resultando numa democratização das relações conjugais, sendo que tanto o homem como a mulher são responsáveis pela educação dos filhos. Estas mudanças explicam-se com a generalização da actividade feminina no mercado de trabalho e com o contributo da mulher para os rendimentos da família de forma igual à do homem.
As práticas familiares nem sempre coincidem com os princípios estabelecidos, nomeadamente no que se refere à partilha das tarefas domésticas, em que a sobrecarga de trabalho para as mulheres é ainda muito grande.

  * Sacerdote da Arquidiocese de Luanda ao serviço da CEAST

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