Opinião

Outros significados de palavras de amor

Luciano Rocha |

Namorados, amantes, palavras recheadas de amor, foram, ou têm vindo a ser, adulteradas e adquirido significados diferentes. 

Amante é agora palavra dita muitas vezes em surdina, com laivos de veneno. Em conversas de má-língua semeadas por invejosos que, muitas vezes, não desdenhavam estar no lugar de quem pretendem ofender.
O vocábulo - usado, em todas as épocas, por poetas insignes de todo o mundo -, porventura pelos motivos referidos, foi-se esvaziando do verdadeiro significado e passou a ser apenas alguém que tem relações sexuais fora das regras instituídas.
A palavra namorada(o) nem sempre tem o sentido de outros tempos. Agora, pode também querer dizer que duas pessoas vivem juntas sem terem oficializado a união.
As modas mudam, alteram-se hábitos. Não tenho nada contra novos tempos, embora nem sempre tragam aragens novas. Mesmo sem ser saudosista - embirro com os cultivadores do “antigamente é que era bom” - julgo que às novas gerações falta a inspiração dos poetas, jardineiros de todas as esperanças, sejam de que índole forem. São eles, como ninguém, que acendem nossos sonhos, atenuam dores, desesperos, incentivam à persistência.
Viriato da Cruz reúne todos aqueles sentimentos em “Namoro”. O desespero dos apaixonados raramente é descrito como naquele poema. Que conta a história de Benjamim. O homem que, perdido de amores não correspondidos, recorreu a poderes celestiais por via das Santas Efigénia, da Muxima, Ilha do Cabo. Também tentou os terrenos, na opinião de muitos, não menos eficazes. Movido pela febre da paixão, palmilhou asfaltos e areais para rogar à Zefa do Sete que o ajudasse a conquistar a jovem bela e prendada. Qual quê! Do céu e da terra não lhe chegaram respostas. Nem os doces, comprados e oferecidos na Rua da Missão, resultaram. Como provou o cantinho do “não”, em vez do “sim”, que ela dobrou no cartão “por si meu coração sofre” tipografado pelo Maninho da “Minerva”. Por isso, os amigos deram-lhe encontro sozinho “no Morro da Samba”. “Sujo e barbado”. Na tentativa de lhe atenuar a dor, levaram-no “ao baile do Sô Januário”. Onde estavam “as moças mais lindas do Bairro Operário”. Entre as quais, a tal. O coração em pedaços do enamorado bateu com estrondo. Nem ngoma batucado nas mãos juntas de Amadeu, Xôdô, Joãozinho. Na união das diferenças de gerações. A tristeza, logo-logo, virou coragem, atravessou o salão e os dois dançaram, rodopiaram. Com ela a voar-lhe nos braços parecia era avião da feira. E a malta abuamada gritou “Aí, Benjamim”.
O amor sofrido não sucedeu somente a Romeu e Julieta. Drama contado e cantado em tantas línguas. Ou a Benjamim. Também açoitou Agostinho e Eugénia Neto. Na cadeia, o poeta escreveu um poema para a mulher. Que era - foi, é -, “Buquê de rosas para ti”. Feitas de palavras repletas dos aromas de todos os afectos que apenas os enamorados conseguem sentir. E regadas com a força do sonho da liberdade construído por quem estava impedido de a ter. 
António Jacinto - outro dos nossos poetas maiores - fala igualmente do desespero sofrido pela separação forçada. Neste caso, do contratado e da companheira que ficou na sanzala, quando o levaram à força para terra distante. Aqui, a saudade e a distância agigantam-se na fala do desterrado: “Eu queria escrever-te uma carta amor/ mas não sei escrever/ e tu, não sabes ler”.
Os tempos são outros, eu sei, mas ouso sugerir que no Dia dos Namorados, que se aproxima, se esqueçam novas tecnologias e se enviem cartas de amor “em papel perfumado” ou ramos de rosas com pétalas de poesia. Mesmo quem não souber escrever, mesmo que os destinatários não saibam ler.

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