Opinião

Passagem de testemunho

Luísa Rogério

Quando o presidente José Eduardo dos Santos anunciou a sua retirada da política activa no ano 2018, surgiram muitas vozes cépticas. Desenharam-se conjecturas interessantes. Alguns vaticinavam que JES jamais abandonaria a presidência do MPLA.

Os mais ousados diziam que o político daria a volta por cima para concorrer a um novo mandato legitimado pela Constituição. Assim que o Tribunal Constitucional abriu o período para apresentação de candidaturas ficou patente a ausência do nome de José Eduardo dos Santos da lista encabeçada por João Manuel Gonçalves Lourenço. Este, após vencer as eleições não desperdiçou tempo para demonstrar que entrou na Cidade Alta para imprimir um novo estilo de governação. Ao assumir sábado último a liderança do partido que governa o país há 43 anos João Lourenço passou a corporizar o poder real. É, inequivocamente, o verdadeiro titular do poder Executivo. Dito em linguagem corrente é o cidadão que mais manda no país. Sem sombras nem controlo remoto. Ponto!
O congresso de sábado, realizado com a finalidade única de eleger o novo presidente do maioritário confirmou a transição política. Diga-se, em abono da verdade, que o termo eleição soa meio esquisito diante do contexto de candidato único. No entanto, se o objectivo era testar o grau de popularidade do novo líder, as cifras afastam dúvidas e eventuais contestações. Apenas 27 delegados votaram contra num universo de 2.309 votos válidos. João Lourenço foi praticamente eleito por unanimidade e aclamação como se exaltava no tempo do partido único. Ao acumular a função de figura máxima do partido, o Presidente da República ganha maior alento para dar sequência às reformas propostas. Os angolanos já sabem que o “Exonerador Implacável”, conforme foi baptizado nas redes sociais, não vacila na hora de tomar decisões. Falta agora dar sustentabilidade às reformas para que estas produzam os efeitos desejados que, naturalmente, não se fazem sentir no amanhecer seguinte.
O discurso de João Lourenço soou a redenção. Mostrou-se seguro e revigorado. Resgatou o capítulo oculto da história, citando os nomes de Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade, primeiro e segundo líder do MPLA, entretanto arredados dos manuais e discursos oficiais. Realçou que, doravante, a necessidade de construir uma classe empresarial forte deixará de se confundir com enriquecimento fácil e comportamentos ilícitos. Transmitiu mensagens claras. Os criminosos gananciosos vão ser enquadrados nos termos da legislação em vigor. Ou seja, serão responsabilizados criminalmente. A fazer fé nas palavras do seu timoneiro ser do MPLA deixará de ser um mecanismo para abrir portas para cargos de ministro, embaixador ou governador. Cabe ao futuro certificar se a militância no partido governante passará a significar “servir Angola”. A ruptura com práticas nefastas configura-se na citação de quatro famigerados factores que minaram a confiança dos investidores, além de afectarem a reputação e credibilidade do país. Com todas as letras, João Lourenço declarou combate à corrupção, nepotismo, bajulação e impunidade. São comportamentos nocivos, fortemente conotados ao próprio partido e, consequentemente aos círculos da governação. O que atinge a figura do homem que cumpriu a promessa de abandonar a vida política activa, encerrando um ciclo de poder alicerçado ao longo de 39 anos marcados por relevantes factos da história de Angola.
Em múltiplos aspectos José Eduardo dos Santos continua a ser uma incógnita. Certamente estaria em alta se tivesse deixado a política em 2012, altura em que Angola não tinha mergulhado na crise que aumenta a legião de pobres habitantes do país potencialmente rico. O nosso ex-Chefe de Estado desperta sentimentos díspares. Por um lado, não nos esquecemos que foi na vigência do seu mandato que a corrupção floresceu. Esvaziaram-se as competências de diferentes sectores da administração pública. O vazio colocou cidadãos de várias localidades em modo de auto-gestão. O fosso entre uma minoria enriquecida e a maioria desprotegida, bem como o nepotismo, autoritarismo e impunidade estarão ligados ao ex-presidente. A má-gestão e açambarcamento do bem público, os limites à liberdade de imprensa e demais valores republicanos contribuem para uma avaliação menos boa do desempenho de governos encabeçados pelo emérito.
Tal como reconheceu no seu último discurso na condição de presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos cometeu erros. Um dos mais flagrantes, principalmente por ser o grande estratega que é, foi rodear-se de pessoas que quase o elevaram à condição de semideus. Gente que o adulou ao extremo, protegendo-se debaixo do guarda-chuvas do chefe para fazer o seu quinhão. Deixa órfãos políticos, mas também ex-bajuladores desmemoriados que evidenciam propensão para ingratidão e falta de reconhecimento. Não obstante todas as nossas desgraças há um legado bom de JES, inúmeras vezes vulgarizado devido ao exagero bajulatório. Mesmo sem ter feito a paz sozinho, José Eduardo dos Santos foi decisivo para a sua conquista. Quando ganhou a guerra “não anulou o adversário, deixando-lhe espaço político. Não sei se fosse outro vencedor se as coisas se passariam da mesma forma.” A afirmação do investigador, escritor e jornalista Jonuel Gonçalves ganha respaldo em vários sectores da opinião pública. José Eduardo dos Santos, com erros e acertos tem lugar cativo na História que não cataloga permanentemente os protagonistas entre vilões e heróis. Tratá-lo com dignidade é respeitar a instituição Presidência da República que, muito além das cores partidárias, representa os angolanos.

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