Opinião

Pepetela, o mô kamba

Osvaldo Gonçalves

Este texto – crónica ou como lhe quiserem chamar – devia ter como título “Elogio a Pepetela”, mas não vamos por aí e ‘Kota, se alguma vez pensaste isso de nós, tira já o cavalinho da chuva: o escritor escreve, o leitor lê. Estamos entendidos? Se alguém não gostar, que coma menos. E viramos mesmo “Vladimiro Caposso”:“Porra, pá!

Mesmo a canjonjar as últimas páginas do romance “Predadores”, acabamos por lê-lo todo. Comprámos mesmo na Baixa de Luanda, pertinho da sede do Jornal de Angola e, ao lê-lo katé nas acabadas, é-nos possível corrigir um erro do texto original e dizer que foi acabado em “Luanda, Janeiro de 2005”, como vem aqui escrito na página 380.
Nesta vida, se não lemos todos os seus livros, lemos bastantes e ainda havemos de ler mais. Não será por falta de leitores que ele arruma as botas. Ou escreve mais ou escreve mais. É uma “injigença”!
Assim, vão falar que estamos a lhe emitar na escrita. E qual é o “prubulema”? Lêmo-lo desde miúdos. “Conheces bem o Pepetela?” –perguntavam-nos. ‘Conheço, claro que conheço. Ele vai todos os domingos à praia ali mesmo em frente à nossa casa na Ilha!’ Pepetela não se deve lembrar, éramos aquele garoto magrinho de cabelos cumpridos que andava sempre por ali perto daquele restaurante famoso: ‘Sabes quem é?’ – era assim que nos vingavamos –‘É o camarada Pepetela!’
Muitos anos depois, fomos a uma reunião de pauta de uma revista no Alvalade. E quem lá estava? Pepetela, o escritor. Nessa edição, saiu um artigo nosso. Assinado. E de quem era um dos outros textos? De Pepetela!
Ao ler “Predadores”, apresentado em nota na contracapa como “um retrado contundente e brutal de 30 anos da história de Angola, de 1974 – ano que antecede a independência – a 2004”, e como “uma autocrítica à nova burguesia angolana que se formou após a independência do país”, “personificada pelo ambicioso Vladimiro Caposso”, de quem já aqui falámos, fica-se com a impressão de que o romance foi escrito por nós mesmos.
Caposso, que se auto-recria, chegando a inventar o próprio passado, pai incluído, é uma caricatura dos novo-ricos angolanos, com responsabilidades nos vários problemas que o país vive, que se sentem em posição desconfortável sempre que confrontados pela Justiça.
Ao abordar o problema da seca no Sul do país, Pepetela aponta o dedo directamente aos novos latifúndios, que, com arame farpado, impedem a passagem do gado e criadores tradicionais na busca de novos pastos, desviam e travam cursos de água, para criar lagos artificiais.
Fica claro no livro que a situação é de amplo conhecimento, augurando-se que a culpa pela miséria, fome, doenças, pelo genocídio das populações locais não acabe por morrer solteira devido à falta de denúncias. Elas estão aí, públicas, na forma de um romance de leitura saborosa.
A pergunta que fazemos é sobre como as coisas chegaram a este ponto se o problema já era referido nos tempos da FENAGRO, antes da fundação da UNACA, nas sessões das Assembleias Populares Provinciais.
Este escritor, que é licenciado em Sociologia, foi guerrilheiro do MPLA, político, governante, professor universitário e venceu o Prémio Camões em 1997, além de dirigente na União dos Escritores Angolanos e na Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, demonstra a cada livro que lemos dele uma relação de camaradagem com a língua portuguesa. Não apenas com o que se chamar erudito, mas com os modos de falar do povo.
Já neste romance, volta e meia introduz no texto novas expressões, hoje muito em voga, sobretudo, nas redes sociais.
Portanto (e esta é mesmo para concluir), se um dia destes alguém nos voltar a perguntar se conhecemos o escritor Pepetela, a resposta será: ‘Não só conheço. É mesmo mô kamba’.

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