Opinião

Petrolíferas – Fusões e Aquisições

Eduardo Beny

As fusões e aquisições são um fenómeno cada vez mais comum, nos dias que correm, entre as empresas tecnológicas, mas, em empresas tradicionais como as petrolíferas não é tão comum.

Assistimos, há poucos dias, a intenção de aquisição da Anadarko, por parte da Chevron. Um caso muito interessante, pois vemos vários pontos de convergência, no mercado que nos alertam para uma movimentação no xadrez da “corrente sanguínea” do ouro negro. Senão vejamos:
1) A da Chevron terá acesso à geografias aonde não estava como na Argélia, em Moçambique, Gana e vai completar as operações no Golfo do México;
2) O petróleo e gás de xisto estão a ser explorados de forma tecnológica muito mais avançada que no passado, o que permite, actualmente, extrair por “fracking” e perfuração horizontal grandes reservas de um único ponto central maximizando o investimento;
3) O GNL (Gás Natural Liquefeito) traduz-se, cada vez mais, em sinónimo de energia limpa o que em diversos círculos de análise prevê-se o que brevemente poderá atingir uma procura muito intensa;
4) As reservas de GNL da área 1 e 4 de Moçambique são uma das maiores do mundo e poderá, dentro de poucos anos, abastecer os mercados, em diferentes mercados ávidos desse bem, como Índia e China;
5) A Chevron ficará com poder de “fogo” muito próximo da Shell e da ExxonMobil (ambas com interesses no GNL, bem como no petróleo e gás de xisto, sendo esta última parceira da ENI na área 4 da bacia do Rovuma);
6) A Saudi Aramco a maior empresa do mundo, nesta área, poderá, brevemente, dar uma cartada, neste cenário, e desequilibrar as contas de todos. Com uma IPO (Initial Public Offering) ou OPV (Oferta Pública de Venda), para 2021, analistas estimam já que a empresa valerá em bolsa mais de 1 trilião de dólares, sendo que, em 2018, apresentou lucros antes de impostos de 224 mil milhões de dólares.
Temos quatro grandes companhias aliadas, entre si, em vários pontos e concorrentes ao mesmo tempo. Aliadas no sentido de estarem a apostar fortemente no petróleo e gás, no aumento dos preços via redução da produção (procura constante com oferta a ser reduzida gera um aumento dos preços), no aumento dos preços via política externa (EUA impondo sanções ao Irão e à Venezuela e a Arábia Saudita apoiando incondicionalmente com aumento da produção, para colmatar a falta do petróleo iraniano), nas participações cruzadas em diversas empresas maiores ou menores de apoio a operação global (extracção, manutenção, transportes, etc.) e ainda na necessidade de maximizar o lucro a médio e longo prazo.
Concorrentes no sentido de “somos irmãos mas serei maior e mais eficiente que tu”, como na aquisição hostil ou acordada de outras companhias menores para “engordar” o tamanho e massa crítica, na formação de activos, sendo eles por concessões de explorações - passíveis de transformar, em dinheiro, para amortização da dívida ou aquisição de outras empresas - ou na maturidade de exploração em que ainda poder-se-á desfazer-se do activo em condições vantajosas. São ainda concorrentes na investigação e desenvolvimento, bem como, nas estratégias de manutenção das concessões com os diferentes governos ao nível global aonde têm interesses.
Nesse último ponto teremos que concordar que o mundo actual está diferente daquele que vimos nos últimos anos e que agora temos ameaças constantes mas não reais. São ameaças “suspensas” no nosso psicológico. “Quem me garante que amanhã não atacarão uma igreja aonde estarei a rezar e comigo morrem outras duzentas pessoas?”. É o tipo de pergunta que qualquer transeunte faz, depois de assistir aos últimos eventos (massacre de Sri Lanka).
Esse pensamento, também, está suspenso como uma espada de Dâmocles nas petrolíferas que têm que localizar as explorações nos países democraticamente sólidos e que garantam uma partilha honesta dos lucros com quem investe e que gera emprego e riqueza, para o país de escolha. Este é o caso de Angola que ainda tem muito para dar em matéria de petróleo e que poderá, seguramente, fazer a diferença no xadrez global. Por um lado, as descobertas de gás “on-shore” em Cabinda e a sul de Luanda e, por outro, a de prospecções futuras nos trazer agradáveis surpresas e termos uma economia alavancada com mais um recurso, de procura intensa nos próximos tempos, como é o caso do GNL.

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