Opinião

Por pouco roubavam as estrelas

Luciano Rocha

Os recentes arrestos de imóveis em Luanda apenas comprovaram a desumanidade de determinadas castas que auto-proclamaram impunes, com direitos ilimitados sobre tudo e todos para satisfazerem egos luxuriantes e desumanos.


Aos cultores daquelas práticas criminosas, por absoluta falta de tempo, a não ser para engendrarem artimanhas que lhes dilatassem fortunas escandalosamente exibidas cá dentro e lá fora, como quem apregoava “somos intocáveis”, jamais lhes ocorreu que a correria frenética de assalto aos bens públicos, pela qual optaram, podia ter meta de chegada anunciada com a palavra justiça para lhes pôr cobro aos desmandos.
A verdade é que, a partir de certa altura, os “senhores intocáveis” sentiram que lhes procuravam impedir a bebedeira do enriquecimento à custa do bem comum, incluindo do sofrimento dos mais pobres, dos que já havia e daqueles cujo surgimento provocaram. Como? Hão-de perguntar eles próprios, com a mesma aparente indignação com que, na hora de prestar contas, choram baba e ranho e os falsamente surpreendidos. Respondo o que todos, criminosos e vítimas, sabem: além do desemprego, há lavras que deram lugar a caminhos privados para vivendas de fim-de-semana, com pistas de aviação. Juntem os furos de água, pagos, mas não feitos, tal como estradas e pontes, dignas desse nome, por onde escoar produção do campo para os centros de consumo? A isto, entre tantos outros crimes de lesa-pátria, juntem-se ambulâncias e maximbombos importados a aguardar, sem uso, destinos dúbios. E os exércitos de incompetentes nas empresas públicas, para as quais entraram pela via do nepotismo, a ocupar lugares sem estarem minimamente preparados, enquanto pessoas qualificadas foram condenadas à desocupação? Então, quem são os culpados deste quadro dramático? Fechado este parêntesis para avivar memórias, volte-se ao cerco aos que se sentiam impunes, em suma, aos que transformaram Angola em coutada particular, base de abastecimento, de onde tiravam quanto lhes apetecesse para satisfazerem apetites insaciáveis de exuberância, que, com frequência, são motivo de chacota. Uns puseram-se ao fresco, foram para o estrangeiro, na esperança de dias dourados do que lhes resta de uma vida acinzentada, outros já lá estavam, também houve os que quiseram fazer o mesmo e não conseguiram e os que ficaram, certamente na esperança de serem esquecidos. Esperemos que não, pois se a apropriação indevida do erário é crime grave, roubar o próprio povo, votá-lo à indiferença, ao sofrimento, à morte, é gravíssimo e um acto de desumanidade desta índole jamais deve passar em claro.
Os que se sentiam impunes começaram agora a perceber que a justiça pode não ser tão rápida quanto a maioria do angolano comum deseja, mas, na maioria das vezes, mesmo de malembe-malembe, chega. Pelo menos, já demonstrou à gatunagem de “colarinho branco” que os caminhos que trilhava estão menos acessíveis. Por isso, estamos livres, ao contrário do que já sucedeu, de acordarmos um dia com o país “oficialmente privatizado” pelos vendilhões da Pátria. Livrámo-nos, mas esteve quase. Depois somente nos restavam as “estrelas do Manuel Rui”, cantadas pelos “meninos do Huambo à volta da fogueira”, a lembrarem que elas “são do povo”.
Esta é cantiga-estória que os marimbondos e candidatos desconhecem ou fazem por desconhecer, para não lhes lembrar passados de sentar no chão, cadeira do povo, que renegam, como desonram passados que os deviam honrar, até trocaram nomes, inventaram currículos, compraram canudos académicos.

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