Opinião

Por uma nova ordem educativa

Filipe Zau

Roger Sperry, prémio Nobel de Medicina,  defensor do “enfoque diádico” para a compreensão da aprendizagem – a mesma que aborda, por um lado, as funções lógico-racionais e intuitivo-emocionais – refere-se à questão da lateralidade das funções cerebrais; ou seja, o cérebro está, anatomicamente, dividido em dois hemisférios e as suas funções são realizadas pelo esquerdo e pelo direito, que, por sua vez, acabam por desempenhar papéis distintos.

 

Roger Sperry, prémio Nobel de Medicina,  defensor do “enfoque diádico” para a compreensão da aprendizagem – a mesma que aborda, por um lado, as funções lógico-racionais e intuitivo-emocionais – refere-se à questão da lateralidade das funções cerebrais; ou seja, o cérebro está, anatomicamente, dividido em dois hemisférios e as suas funções são realizadas pelo esquerdo e pelo direito, que, por sua vez, acabam por desempenhar papéis distintos. “O lado esquerdo é preferencialmente responsável pelas actividades lógicas, analíticas, verbais, racionais, matemáticas, etc. O lado direito processa mais o emocional, o sintético, o intuitivo, o criativo, o artístico e as imagens”. Daí que Ferguson tenha também afirmado que, sempre que a complexidade da cultura aumenta, a ciência torna-se mais abrangente e as opções apresentam-se mais variadas “necessitamos de uma compreensão maior do cérebro direito para inovar, sentir, sonhar e imaginar; e do cérebro esquerdo para testar, analisar, verificar e apoiar a nova ordem”.
Paul MacLean, defensor do “enfoque triádico” da aprendizagem, refere que o cérebro consta de três computadores biológicos integrados, cada um deles, entre outros aspectos, com inteligência, subjectividade, sentido de espaço e tempo, funções motoras, memória e comunicação independentes. Com base no princípio do holograma, tudo se repete no todo e o todo está em tudo. Segundo Karl Pribran, o holograma traz-nos a noção de que “uma partícula ampliada reconstitui o todo”. O holograma é um poderoso modelo para os processos mentais porque os cérebros individuais são pequenos pedaços de um holograma maior. Em síntese, a teoria holográfica afirma que os nossos cérebros, matematicamente, captam e traduzem a realidade externa através da interpretação de frequências dos corpos energéticos observados. O cérebro é um holograma interpretando um universo que também é holograma e, neste contexto, talvez, a realidade não seja, aquela que nos é possível ver com os nossos próprios olhos.
O reptílico, que nos répteis é o “único” cérebro, nos mamíferos corresponde à parte interna do cérebro, ou seja, o cerebelo. Ainda de acordo com MacLean, esta parte do cérebro é responsável pelo comportamento agressivo de luta, de reprodução, de sobrevivência e pelo estabelecimento de hierarquias sociais (poder) e rituais correspondentes. Ocorrem aqui também os padrões automáticos, os hábitos e as rotinas.
O sistema límbico, corresponde à 2ª camada do cérebro e nele se encontram, entre outras, as estruturas do tálamo e do hipotálamo, comuns a todos os mamíferos. O referido sistema é responsável pela emoção, comportamento e controlo do sistema nervoso autónomo. Daí que seja esta parte do cérebro também conhecida como o “cérebro do sentimento”.
O neo-córtex, a camada mais externa e evoluída do cérebro, típica dos mamíferos superiores e do homem, é a parte responsável pela racionalidade, linguagem conceptual, verbal e simbólica. É o chamado “cérebro inteligente” já que, os seus neurónios, altamente especializados, lhe viabilizam a realização de múltiplas tarefas em simultâneo.
MacLean também menciona, que a inteligência é o produto do esforço combinado dos três computadores biológicos, ou dos três cérebros do homem atrás referidos, com particular destaque para o sistema límbico, pois parece ser ele o principal responsável pelas atitudes da pessoa perante a vida.
De acordo com Oliveira, no seu livro “Psicologia da Ensinagem” a Cibernética Social e o Proporcionalismo é uma teoria que também defende a perspectiva do cérebro triádico. Criada por Waldemar De Gregori “a Cibernética Social e Proporcionalismo é uma teoria sistémica/holística que tem como base a nova física quântica, considerando o ser humano um quantum de energia assumindo realidades diversas em ciclos diferentes. Sendo uma proposta de abrangência global a Cibernética Social e Proporcionalismo implica: uma cosmovisão, um referencial teórico, uma teoria de cérebro, uma proposta de convivência planetária, uma ética e uma lógica social”. Retoma e amplia, de entre outras, as teorias de Paul MacLean e acrescenta-lhe aspectos próprios da sua visão, sem deixar de parte a perspectiva educacional. Decorrente das modernas neurociências e de um trabalho educacional, esta concepção defende que o encéfalo tem três maneiras de perceber, processar e de se expressar em relação à realidade e que, em Educação, isso foi traduzido para processo psicomotor, afectivo e cognitivo. Nesta ordem de ideias: o processo reptiliano responde, primordialmente (mas não exclusiva, nem localizada, mas conjuntamente), pelos movimentos e pelos chamados instintos de reprodução, sobrevivência e agressividade, que são depois transformados em profissão, organização e rotinas; o processo límbico ou intuitivo responde pela lucidez, afectividade, criatividade, sentido estético, religiosidade e mitos; o processo neo-cortical ou lógico responde pela comunicação verbal, cálculo, raciocínio lógico, pesquisa, análise, crítica e feedback.
Mauro Torres, psiquiatra e psicanalista colombiano contemporâneo, tem uma intensa investigação no campo da mente humana. De entre as suas várias obras publicadas, “La Mente Dividida”, publicada em 1982, trabalha com a concepção diádica de cérebro. Posteriormente, em “Hacia una Medicina de las Funciones Mentales”, introduziu o enfoque tridimensional do cérebro e funções mentais, que ele denomina: Síndrome córtico-límbico-hipotalâmica. Refere-se também ao equilíbrio mental, onde as três funções são cuidadosamente balanceadas sob o comando das funções racionais .    
Ora, a pessoa entendida, principalmente, como um misto de razão e emoção é também acção. Nesta perspectiva, a aprendizagem é, assim, fruto da interacção dos três blocos do cérebro e das suas funções. A maneira de melhorar o desempenho na aprendizagem é treinando o desenvolvimento destes três blocos do cérebro de forma harmónica e proporcional, já que a falta de equilíbrio, de diálogo ou “triálogo” entre as três partes do cérebro, tem como vítima o aprendente e a sua própria aprendizagem . Esta é aqui entendida como sendo um processo interno, que consiste no ajustamento ou reacção do indivíduo ao meio, que o leva a agir posteriormente a novas situações de forma diferenciada.
A Educação só pode ser entendida como um processo multifacetado e harmónico, que, para a formação integral da pessoa, vista como um bio-psico-social inserido num contexto cultural específico, necessita de desenvolver capacidades, habilidades e hábitos, que decorram da aquisição de conhecimentos, não só, de ordem intelectual, mas também de carácter: físico, estético, ambiental e cultural; laboral e politécnico; solidário, ético, moral e deontológico. É neste contexto que deve residir uma nova filosofia de Educação, ou uma “nova ordem educativa” para o desenvolvimento dos recursos humanos em Angola.

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