Opinião

Poupar e desperdiçar

Luciano Rocha

A recente divulgação de que o Governo do Cuanza-Sul paga o aluguer de dois automóveis a outros tantos vice-governadores deixou a maioria dos angolanos estupefacta.

O caso, a confirmar-se, torna-se, ainda mais estranho, para sermos meigos nas palavras, por o país viver a situação dificílima, que grande parte da população conhece, por a sentir na carne, herdada do tempo do desbaratamento do erário, a que se juntou a pandemia da Covid-19.
Naquele tempo recente, Angola era o “reino do despesismo” com dinheiro alheio por parte de grupos restritos de uma pequena burguesia impreparada surgida da “lei do nepotismo”. Sem o aparecimento destas “elites”, nunca é demais repetir, o país não tinha chegado onde chegou e hoje estávamos menos mal preparados - não há nenhum país que esteja bem - para enfrentar o “inimigo sem rosto”.
O próprio Chefe de Estado não hesitou em reduzir o número de ministérios e de chefias, forma de apelar, com exemplos visíveis, à redução de gastos. O “caso do Cuanza-Sul”, a comprovar-se, é exactamente o contrário, afigura-se como modelo de desperdício, a fazer recordar a “época das aparências”. Uma das perguntas que se coloca é: o governador daquela província desconhece a situação do país? Conhece, mas pôs outros interesses à frente dos de âmbito nacional? Quais? Quem beneficia com eles? Interrogações cujas respostas hão-de ser conhecidas. Esperemos que sem delongas. Se é tudo falso, pelo bom nome do atingido e que os autores da calúnia sejam responsabilizados. Se é verdade, que impere o bom senso. Que, uma vez mais, o processo não se arraste, como tartaruga, nem caia no esquecimento. Menos, ainda, se procure desvalorizar o caso, como de somenos, com o argumento estafado “todos os males fossem desta natureza”. Com frequência sucede que um pequeno problema não resolvido a tempo origina outro de maiores dimensões. Mas partamos do princípio de que o aluguer de viaturas para vice-governadores não fere a lei. É isso que impede o cidadão comum de fazer contas? De concluir ser injusto pedirem-lhe mais e mais apertos de cinto? E a zungueira que tem de percorrer distâncias infindáveis a pé, por não ter com que pagar o transporte público, com filho às costas, bacia na cabeça, sem saber se faz os Kwanzas para regressar a casa? E a criança que continua sem aprender a escrever, nem ler por a escola ficar longe? E os camponeses que, a caminho da lavra, vêem passar senhores em carros luxuosos que lhes não pertencem? E os que não conseguem escoar os produtos por não haver caminhos, nem viaturas para os levar para onde são vendidos? E se todos os outros governos provinciais resolvem fazer o mesmo? E se alguns já fazem o mesmo? E se o aluguer de automóveis para vice-governadores é legal? Apenas por isso já é decente? Também não era legal o Executivo ter o número de ministérios que já teve? Por que é que deixou de ter? Para reduzir gastos e aplicar o dinheiro poupado a fazer o que já devia ter sido feito, de forma a recuperarmos o tempo perdido na época das aparências, mas, também, face à desigualdades sociais insultuosas, por uma questão moral.
O esbanjamento de dinheiro, principalmente, quando não nos pertence - pior, ainda, se proveniente do erário, mesmo se de modo legal - é hábito mau, que tem de continuar a ser combatido, mesmo agora, em plena pandemia. Caso contrário, se voltarmos a viver uma situação como a presente, havemos de continuar sem meios suficientes para a defrontar. É tudo uma questão de fazer contas.
Aceitar um cargo público, seja qual for, a nível nacional, provincial ou comunal, é estar disposto a servir o país, se preciso com sacrifícios, sem lamúrias ou apresentação de facturas, jamais para se servir dele.

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