Opinião

Progresso e retrocesso ou a confusão perigosa

Luciano Rocha

O Dia Internacional sem Sacos de Plástico, celebrado, em cada vez mais países, em 4 de Julho, passou entre nós estranhamente despercebido para gáudio de uns quantos que continuam a impingir-nos retrocesso perigoso como progresso.

O assunto não é novo, até neste espaço já foi abordado, mas, infelizmente, continua a ser ignorado pela maioria de nós, inclusivamente por quem tem a obrigação de zelar pelo bem-estar presente e futuro dos angolanos.
Os perigos causados pelo plástico são de tamanha gravidade que não podem continuar ignorados em Angola, como se fossem coisas de somenos. Mesmo com o argumento de haver “problemas a requererem soluções mais urgentes”. Como são, entre uma imensidão de outros, os das secas e cheias, que afectam a agricultura e aumentam a fome, subnutrição, doenças, óbitos, economia, criminalidade.
O rol de problemas por solucionar em Angola é tão vasto e diverso que ocupávamos o espaço da crónica com ele. Um mal não faz esquecer outros. Das palavras de ordem do Chefe de Estado, mesmo quando ainda não o era, mas lhe serviu de bandeira na campanha eleitoral que o havia de eleger, continua a ser “melhorar o que está bem, corrigir o que está mal”. Até, por isso era de esperar que já tivesse sido feito algo que, no mínimo, desse esperança a esta geração, mas essencialmente às vindouras de ser possível fazermos um país não tão mau como este.
Ora, tal jamais pode suceder enquanto continuarmos a viver cercados de plástico, que nos mata aos poucos todos os dias. Pior, com apelos, sempre constantes, ao uso e abuso daquele tenebroso inimigo que nos espreita ao instante. Em alguns casos de forma muda. Mas, de igual modo em formato de publicidade, mesmo que sub-repticiamente. Não raro, em cerimónias condimentadas com discursos empolgados de exemplo a seguir rumo à tão desejada diversificação económica. Que nos há-de reduzir importações e aumentar exportações. Sem nunca se dizer para onde, claro está, pois cada vez há menos quem o queira sequer vê-lo, quanto mais tê-lo. />Sequer temos de olhar além do continente no qual nos situamos para confirmar que a consciência dos malefícios causados pelo plástico se alastra, felizmente, até a países tão ou menos desenvolvidos economicamente do que o nosso, cujas autoridades assumiram que combatê-lo é essencial para a sobrevivência da Humanidade.
Guiné-Bissau, Cabo Verde, Mauritânia, Marrocos, Moçambique, Ruanda, São Tomé e Príncipe, Tanzânia e Zimbabwe são exemplos de nações africanas que, independentemente do grau de desenvolvimento, aderiram ao combate ao plástico, quatro dos quais, como se verifica, integram, tal como Angola, a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa. Porquê este nosso atraso? É pergunta que cabe aos responsáveis governativos responder. Mas, também aos partidos políticos, incluindo os da oposição, organizações juvenis, de mulheres, estudantes, ambientalistas, Igrejas, sindicatos, principalmente da saúde. No fundo, toda a sociedade. Porque é o futuro do Planeta que está em causa. E, embora haja quem julgue que não, fazemos parte dele.
A luta contra o plástico - contaminador de mares, rios, lagoas, terras aráveis, o ar que respiramos - não é política, muito menos partidária. É pela nossa sobrevivência. Talvez, se não for antes, as campanhas para as autárquicas sejam ocasião para debater a questão, alertar consciências. E fazer entender a quem não perceba, nem queira, que o equilíbrio dos pratos da balança das exportações e importações não pode ser conseguido a qualquer preço. Que a vida humana é mais valiosa do que tudo em qualquer país. Lembrar-lhes, igualmente, que a diversificação económica pode criar postos de trabalho sem comprometer presente e futuro. E que retrocesso e progresso rimam, mas são antagónicos.

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