Opinião

Putin pisa o terreno na Síria e revitaliza o seu tabuleiro

Luis Alberto Ferreira |

O proclamado ingresso simultâneo da Ucrânia na União Europeia e na OTAN, parecendo, em leitura imediatista, “uma vitória”, poderá ser na UE um elemento de divisão e perturbação.

Depois do golpe de Estado de 2014, a Ucrânia tem sido espartilhada pela actividade dos influentes blocos de ideologia neonazi. As razões das linhas divisórias no interior da Ucrânia são ideológicas. Dois blocos desfraldam as respectivas insígnias históricas: os ucranianos que professam o socialismo e a democracia sem descortinar motivos para hostilizar a Rússia, e os neonacionalistas de ideologia nazi que reivindicam a função “libertadora” (!) da sua cumplicidade com as forças hitlerianas… quando da invasão da antiga URSS. Mais de 50 conselheiros da OTAN “trabalham”, já, no interior da cúpula castrense e de outros compartimentos oficiais da Ucrânia.
Como se as duas partes, a começar pelo anfitrião, vivessem noutro planeta. A Rússia tem, de um possível ingresso da Ucrânia na OTAN, uma interpretação fácil de intuir por gregos e troianos. Em todo o caso, em termos militares, se a Ucrânia for motivo real de “preocupação” para Moscovo, sê-lo-ia de igual modo para a própria Europa e respectiva segurança. Uma Europa que terá de efectuar uma clara dilucidação das consequências da entrada, na UE, de um “sócio” com tais características, a Ucrânia. Numa altura em que se agudizam, enormemente, o fenómeno dos refugiados e as cruentas incertezas e perigos em remanescência do Médio Oriente: Israel, Arábia Saudita, Líbano, Síria, Iraque, Irão, Iémen e… Turquia. (Erdogan encontra-se, hoje, nos antípodas do Erdogan de 2015-2016). Os extremistas ucranianos que blasonam as flámulas do III Reich estão a equivocar-se na sua aritmética evaporativa, a da fuga do próprio país para os mais atraentes da Europa/Eldorado: vagas de novos imigrantes assaltando uma Europa ocupadíssima em múltiplas e embaraçosas frentes exigenciais. O mundo sabe o que está a acontecer: acabaram-se as ilusões e o fantasma da contagem de armas bate à porta de cada cidadão. À reclamada Idade do Consenso responde como que uma nova Idade da Pedra, com os “vikings” cheios de razão nas reclamações “culturais” junto do hemiciclo da Unesco - e com a Atenas de Séneca zombando das “conquistas tecnológicas” dos rancheiros do Destino Manifesto. A Ucrânia semeia ventos para colher tempestades. Atento às novas formas de abrangência multipolar, Vladimir Putin lá vai abrindo janelas para a oxigenação planetária. Eis que, num rasgo de grande destemor físico e político, Putin visita, de surpresa, o terreno fumegante, ainda, das bases aéreas da Rússia em solo da Síria, a de Latakia. Uma inspecção que coincide com o auge das novas interacções políticas convergentes no Mundo Árabe, consequência da anunciada e insólita mudança, para Jerusalém, da capital de Israel. Benjamin Netanyahu vinha de um recente exercício de musculação imagética no exterior, o superbanquete com que foi obsequiado em Madrid pela monarquia constitucional de Castela. Nada inocente, a luminosa solenidade: há convergências na falsificação ou reescritura da História (Catalunha-Palestina). Como houve antes, em 1918-1920, quando os britânicos criaram, a partir de um pedaço de terra desértico e de modo artificial, o Reino Hachemita. Foi como Londres resolveu, então, pagar favores espúrios a hachemitas e sauditas na luta contra os antigos otomanos. É evidente que os israelitas, ao empreenderem este suposto “salto qualitativo”, negligenciaram a medição prévia do mesmo. Como Donald Trump ao vender, a baixo preço, a teoria estrambótica da “actividade plena”, ainda, do Daesh (Estado Islâmico) em territórios já libertados da Síria. Moscovo considerou esta inverdade “uma forma de os norte-americanos justificarem a permanência da sua representação militar no país” em busca, agora, da reconstrução. Num só pacote de suspeições, vários “produtos” inflamáveis: as Torres de Nova Iorque, Osama Ben Laden e a família Bush, o negócio das imobiliárias norte-americanas na “reconstrução” do Kwait, as armas potentes e as T-shirts do Daesh “caídas do céu”. Tudo isto “vibra” quando são sequestradas as origens árabe-semitas do orbe israelita e Telavive atropela as possibilidades dialogais com a Autoridade Nacional Palestiniana. Atento às diagonais de uma complicada geopolítica, Putin pisa o solo sírio de Latakia seguro de que os terroristas do Daesh foram varridos das duas margens do rio Eufrates. Sem, contudo, baixar as defesas e confiar em certezas absolutas. A escolha de Latakia (em árabe Al-Ladhiqiyah), situada numa península e principal porto da Síria, é uma das certeiras opções estratégicas de Moscovo. Contra as quais nada puderam os “raids” aéreos dos Estados Unidos e da França - de duvidosa finalidade. (Baixas importantes nas populações civis sírias). Putin, entretanto, alarga o tabuleiro e leva o seu xadrez, logo a seguir, para o Egipto e a Turquia. Em resumo, encontros sucessivos com Bachar al-Asad, em Latakia, com Abdel Fatah As-Sisi no Cairo e, por fim, Recep Erdogan, em Ankara. Uma “casualidade”: em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur entre Israel e a Síria, a batalha naval propiciou a novidade da utilização de mísseis e contra-medidas electrónicas. Agora, no Cairo, Putin e o homólogo ensaiaram um passo mais para a construção de uma central nuclear na localidade egípcia de Ed Debaa, no valor de 30 mil milhões de dólares.
Moscovo e o Cairo vão reatar as ligações aéreas entre as duas cidades. Com o homólogo turco Recep Erdogan, o homem do Kremlin encontra-se, para conversações, pela terceira ocasião em apenas dois meses. Também a “agenda” russa para a Turquia contempla, desta feita, questões energéticas. A farândola na ordem do dia, ou o epicentro da política mundial, nesta ponta final de 2017, é, contudo, Jerusalém. Uma das cidades mais antigas do mundo. Inseparável dos sentimentos e convicções das três principais religiões ditas abraâmicas - cristianismo, islamismo e judaísmo. Ao longo da sua traumatizante história, calculem, foi Jerusalém destruída duas vezes, sitiada em 23 ocasiões, atacada 52 vezes e capturada e recapturada 44 vezes. Profilaxia última: extermínio dos palestinianos.

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