Opinião

Quando a água era santa

Carlos Calongo

A infância e adolescência das pessoas da minha faixa etária ficou marcada, dentre várias coisas boas, por aquelas que nos fazem dizer que “afinal éramos felizes sem saber”, com a expressão “água é santa”.

A referida máxima era expressa, sobretudo, nas situações em que nos fosse rejeitado um copo de água, solicitado a pessoas que não nos eram próximas nem íntimas nas relação diárias. Daí a nossa manifestação com o termo que era como que um refrão da nossa contemporaneidade - “água é santa”.
O conceito atribuído ao termo deriva, com os devidos descontos, de valores religiosos do catolicismo ou protestantismo a que as famílias angolanas aderiram e as encaravam, para de um movimento profecia da fé, como instituições de educação, com todos os bons feitios que a religião secular produz na esfera das pessoas e das famílias.
Está claro que, na altura, a máxima evocada tinha muito peso naquilo que eram os valores de solidariedade e espírito de humanismo que as pessoas e as famílias angolanas, por razões culturais, ostentavam como valores intrínsecos que fazem delas um povo acolhedor, hospitaleiro, afável e acima de tudo respeitoso.
A questão, normalmente, se desenrolava no percurso de casa para a escola e vice-versa, ou se tanto, ao longo dos trumunos de bairro e de bolas feitas com peúgas rasgadas, nos espaços distanciados das nossas residências, o que para nós eram elementos bastante para que a petição fosse aceite sem a mínima repulsa.
Importa realçar que alguns pedidos eram feitos à margem da real necessidade de “matar a sede”, sendo que a rejeição, nestas circunstâncias, pouco ou nada nos doía, pelo que continuávamos a marcha, na esperança de que não morreríamos por aquilo. Mais uma vez, de facto, éramos felizes e não sabíamos.
O tempo passou e com ele se alteraram hábitos, usos e costumes das pessoas que, igualmente, se viram obrigadas a aceitar a reconfiguração do seu meio ambiente, “invadido” por pessoas que por várias razões, dentre as quais o conflito armado que durante décadas devastou o país, optaram por um processo de migração interna, com as consequências que até hoje são visíveis ao nível da nossa idiossincrasia quotidiana.
Sendo ou não, de facto e de jure, a razão fundamental, a apresentada no parágrafo anterior, a verdade é que passamos a assistir ao surgimento de um processo de mercantilização da água, em sacos de plástico e outros formatos como o gelo (estado sólido da água), que passou a ser a fonte de rendimento de várias famílias de Luanda.
A partir daí, a água perdeu o seu carácter de santidade, de um produto que a ninguém era negado, e passou a ser um produto comercializável, num processo que foi ganhando dimensão industrial, geradora de lucros astronómicos, e basta olhar para a entrada das cisternas, dos tanques em quintais privados e, mais grave que tudo isso, ao garimpo que constitui um dos grandes problemas que as autoridades afins devem combater.
A considerar como oportunidade de negócio numa estrutura de comércio liberalizado, podemos, com os devidos descontos, aceitar a “mercantilização da água”, desde que seja salvaguardado o seu valor “santo”, que no fundo não é mais do que a sinonimização do conceito que define a água como vida.
Aqui chegados, somos todos intimados a rejeitar que, em pleno século XXI, à luz da era da informação e da internet, a água continue a causar problemas a nível dos que foram registados nos últimos dias e que afectaram, gravemente, os serviços de hemodiálise do Hospital do Prenda.
Noves fora as justificações que mais não servem do que meras tentativas de “salvar a pele”, alguém tem que ser recordado que, em situações em que está em causa a necessidade de salvar vidas humanas, enquanto bem mais precioso da humanidade, o sentido mercantilista da água não deve subalternizar o que todos sabemos, corporizado ao longo do texto como a “água é santa”, que é a mesma coisa que “ água é vida”.

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