Opinião

Quando na morte impera a mania e a vaidade

Carlos Calongo

Em certa medida este texto foi inspirado com o que se registou no funeral do músico Fill Júnior, um dos integrantes do grupo nacional Dream Boyz, facto que reportamos como um exemplo acabado de “atentado à moral e ética públicas”, bem como desrespeito à memória de quem parte para a outra dimensão da vida e, claro, por isso, muito que se dizer sobre aspectos da nossa cultura, quanto aos óbitos.

Em primeira instância, diante da morte, o pensamento humano deve ser o de término de tudo, e que para lá disso existe, apenas, o conforto que emana da crença de cada um, de que a alma do morto foi para “outro lugar”, pensado como melhor do que o mundo dos vivos.
A morte desperta sentimentos de tristeza e consternação, especialmente naqueles que eram próximos aos mortos.
Ela (morte) envolve um conjunto de emoções, desperta crenças, rituais e outros tipos de comportamentos a ela relacionados.
Perante tão dura realidade, todos nos obrigamos a aceitar a morte como um facto social, entendido com base na realidade de cada região, que a ela atribui específica importância.
Entende-se a importância atribuída à morte, pela razão de tornar-se necessária a transmissão de costumes dentro de um grupo, já que o contacto entre diferentes gerações é sempre limitado.
Concordamos com os que defendem que, para que os costumes de uma cultura sejam duráveis ou conhecidos por tataravó ou tataraneto, é preciso que sejam transmitidos sucessivamente de geração em geração.
E um dos ensinamentos importantes que se pode retirar da morte está relacionado com a tendência do homem querer entender a dimensão supra natural de Deus, bem como analisar a luta humana para eliminar as angústias quanto à imortalidade da alma, sendo inglório todo o esforço realizado nesta perspectiva.
A considerar o facto de que os mortos, por si só, não se movem nem fazem nada em benefício próprio, a presença dos parentes próximos, mais do que um mero acto de observação, é o cumprimento de um conjunto de tarefas que se aglutinam aos rituais da cultura angolana, sendo a mais elementar a contribuição financeira para a compra da urna.
Neste quesito, tal exercício não deve ser realizado com espírito de mania ou vaidade de espécie alguma, pois, nenhuma serventia têm face ao valor social ou cultural de que se reveste o óbito e, por conseguinte, o comportamento das pessoas.
Infelizmente este não é o entendimento, tão pouco a forma de proceder de determinados nossos consanguíneos, que fazem do óbito uma oportunidade explícita para darem o show por via de manias, que mais não são do que vaidades, e outros tipos de deslustres.
E para melhor enquadrar o assunto recorremos ao Google para definir os conceitos, mania e vaidade, e aferirmos a gravidade do comportamento daqueles que optam por tal postura, querendo vender a imagem de ser o “boss do óbito”! Que horror.
Assim temos para “Mania”, um costume, hábito ou gosto que normalmente é incomum, repetitivo e extravagante, que podem representar uma característica do transtorno bipolar, um tipo de distúrbio mental, bem como um mau hábito, vício ou esquisitice, que é particular de determinada pessoa.
Originalmente, a palavra mania surgiu do grego “mania”, que pode ser traduzido como “estado de loucura” ou “ demência”.
Deste significado etimológico, a mania também é considerada uma patologia, capaz de formatar um estado de exaltação e temperamento, responsável por desencadear uma série de impulsos irracionais.
Quanto à “vaidade”, definida como o cuidado exagerado com a aparência, pelo prazer ou com o objectivo de atrair a admiração ou elogios de terceiros; a necessidade de vangloriar-se, de ostentar, de se exibir.
Vaidade é uma característica de quem tem orgulho, de quem tem um conceito exagerado de suas qualidades, que é soberbo, arrogante, que se acha grandioso; também caracteriza como aquilo que é vão, ou seja, aquilo que é frívolo, fútil, incongruente, que não possui conteúdo, e se baseia em aparência falsa, mentirosa.
Posto isto, e sendo uma realidade patente nos óbitos, não restam dúvidas que a verdade sublime, neste quadro, é que quando na morte impera, qualquer mania e vaidade nada se ganha senão enal-tecer a soberba, comparando com a necessidade de fazer do óbito um momento de profunda reflexão, pois o dia de todos chegará, para enfrentar tão dura realidade.

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