Opinião

Questionar o Vietname hoje

Manuel Rui

A minha geração ficou marcada por dois momentos históricos singulares: a vitória de Fidel Castro contra a ditadura fascista de Baptista e a vitória do Vietname sobre a invasão do imperialismo sanguinário americano.

E hoje toda a gente se interroga sobre como vai o povo vietnamita, o tal que ainda faz pouco tempo se manteve imune à coronavírus. No entanto, é conveniente sumariar alguns aspectos da história do país.
O Vietname possui uma civilização milenar há mais de quatro mil anos. Foi dominado pela China, teve um Estado feudal, voltou a ser dominado pela China, voltou a várias dinastias feudais até ser ocupado pela França. Teve de lutar também contra o imperialismo japonês que instalara um Governo fantoche declarando o Vietname independente em vésperas da derrota da Alemanha na 2ª Guerra Mundial. Com o Governo japonês a capitular face aos aliados, o Viet Minh iniciou uma insurreição geral, o Governo fantoche caiu e Ho Chi Minh proclamou, em Hanói, a República Democrática do Vietname. Em Janeiro de 1946, mesmo com a presença de tropas estrangeiras, realizou-se a primeira eleição livre e Ho Chi Minh- sempre tratado pelo tio Ho- obteve 90 por cento dos votos e uma ampla maioria na Assembleia Nacional que aprovou a primeira constituição democrática do país.
Só em Março de 1954, os franceses sofreram a derrota definitiva na batalha de Diem Bien Piu, onde começou a ficar célebre e icónico o general Giap. Houve, nesse ano a Conferência de Genebra que determinou a divisão temporária do Vietname entre Norte e Sul. Os Estados Unidos “furaram” a conferência e impuseram um regime fantoche no Sul para combater o Norte. Perante a iminente derrota do Governo títere do Sul, a América desembarcou 25 mil marines em Danang, ocupou todo o Sul e iniciou uma barbárie lançando bombas com poder destrutivo equivalente a 725 bombas atómicas de Hiroxima e Nagasáqui, usaram oitenta milhões de produtos químicos e napalm para destruir a vegetação e 45 milhões de dioxina envenenando 4,8 milhões de vietnamitas. Mas perderam em fuga desesperada após a participação de 2,7 milhões de americanos, dos quais 300 mil fora de combate, feridos e mutilados e mais de 60 mil mortos, perderam quatro mil aviões e enorme quantidade de material bélico.
E depois? A restauração e os falhanços do igualitarismo mais dificuldades post Perestroika e a experiência chinesa levaram a uma nova filosofia chamada “Renovação” (Doi Moi), isto em 1986, visando a criação de uma Economia de Mercado de Orientação Socialista, com distintas formas de propriedade, estatal colectiva (cooperativa), familiar, privada nacional e estrangeira – com controle do Estado sobre sectores estratégicos da economia. Um amigo meu, diplomata, chama a isto “capitalismo colectivo.”
E veio o sucesso. A indústria passou de 22 por cento do PIB para 41 por cento. Caiu a mortalidade infantil, a subnutrição, a pobreza baixou para 8 por cento, a expectativa de vida subiu de 62 para 73 anos, 100 por cento dos povoados têm comunicação telefónica e escolas primárias e o número de estudantes universitários saltou de 210 mil para 1,8 milhões.
Partindo do princípio de que não há “socialismo da pobreza”, portanto o que pretende a Doi Moi é chegar a um modo de produção socialista com a capacidade igual ou maior do que o modo que o precede.
Então, essa figura mítica do mercado deixa de ser antagónica à planificação, nem a planificação é património do socialismo nem o mercado do capitalismo… quase vasos comunicantes. Saliente-se a solidariedade do Vietname, na pandemia, para com outros povos, enviando máscaras e outros produtos para diversos países.
Mas, como não há bela sem senão, o Vietname é acusado de cercear os direitos humanos, principalmente, perseguindo e prendendo bloguistas e não admitindo partidos opositores.
“Ser ou não ser eis a questão”. É em liberdade que se constrói o socialismo ou é o socialismo que vai dar a liberdade? E isso serve para nós onde tanto se falou de socialismo em liberdade… de roubar…

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