Opinião

Questões de cérebros

Fragata de Morais

Nós, que escrevemos semanalmente umas palavras sobre uma qualquer questão porque assumido perante vós o compromisso, por vezes vemo-nos a sofrer pela ausência da ideia, da matéria, ou mesmo da musa inspiradora. Então toca de agarrar em qualquer coisa que nos passe à frente do nariz e tentar produzir aqueles minutos de leitura para os fiéis.


Não é a primeira vez que tal me acontece, até porque os afazeres são muitos, assim hoje, quando abri a página do Google e apareceu-me uma pequena mensagem que dizia “Nunca é tarde para aprender piano”, matutei sobre o que daí conseguiria espremer, para o efeito. Seria que a crónica que agora vos distrai teria que conter letras de música, com sonatas e ou pianos? Ao fim de uns quinze minutos de contemplação do écran, nada, nem uma gota. Confirmada a apatia em relação a letras de músicas, canções ou mesmo a decorar poesia, logo decidi que para mim, efectivamente, poderia ser tarde para aprender piano. Para consolação, sei que toco bem campainhas de porta.
De seguida, fiquei a matutar se deveria alfinetar os júris dos prémios de jornalismo sobre o facto dos colunistas nunca terem sido considerados. Deve existir aí uma razão, será que o que eles fazem é literatura e não jornalismo? Desisti, a Luísa Rogério e o que a sucedeu que se preocupe com isso.
Abri, assim, a minha caixa de correio electrónico e verifiquei as mensagens. Para salvação, graças à amiga Pérola Negra, encontrei o assunto numa das suas muitas matérias que me envia, às vezes até com vírus. Pena que não tenha vindo no mês de Março, mês mulher, pois teria tido, para além daquela página carinhosa que lhes dedico todos os anos, mais um motivo para me engraçar junto a algumas, ou, cutucar com vara curta, outras.
Deste modo, face ao que lera, coloquei a imaginação a produzir o acontecimento num hospital, do qual eu apreciaria o desenrolar do caso. Todavia, pronto reflecti, hospital não, a acção deve decorrer numa clínica chique, daquelas que cobram rios de dinheiro para o paciente receber os mesmos tratos que receberia no hospital, uma clínica daquelas que se vêem nas novelas brasileiras e argentinas. E é de referir que, graças às mesmas, estamos muitos mais sofisticados.
Voltemos ao que importa. Numa dessas clínicas chiques uma família consulta um neurocirurgião sobre um problema do cérebro de um familiar, cuja solução é de extrema delicadeza.
“A vossa única esperança é um transplante de cérebro, operação ainda muito arriscada. Só o doutor Ourives, na novela “O sol nunca acaba”, a levou a cabo uma vez”, atirou à queima roupa o médico.
“Sabemos, todos vimos”, responderam em coro os familiares, mais alentados.
“Pois, se assim o desejarem, tentaremos arranjar o cérebro!...”
O silêncio foi longo, uma operação dessas não é como se de tirar o apêndice se tratasse. A família, não soube o que pensar. O seu ente querido certamente não iria ser operado pelo famoso doutor Ourives, mesmo sendo a clínica luandense de luxo...
“Mas doutor”, aventurou um, “quanto custa um cérebro, certamente que é caro”.
“Efectivamente é caro. Olhem, para um cérebro de homem, o preço é de vinte mil dólares, mas se for de mulher, é de mil e quinhentos”.
Claro que a resposta embaraçou tanto os homens quanto as mulheres presentes, a diferença de preço era abismal. Após um longo silêncio de pudor, lá veio a inevitável pergunta.
“Mas doutor, porque é que o cérebro masculino custa muito mais?”
“Olhe, meu amigo”, respondeu o neurocirurgião, “o cérebro feminino custa muito menos porque foi verdadeiramente usado”.
Obrigado Pérola Negra, obrigado manas de toda Angola, alfinetem o João Lourenço para subir os 40 por cento da vossa discriminação positiva para 50 por cento, é de direito.

 

 

 

 

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