Opinião

Razão de ser de um ano propedêutico

José Luís Mendonça

O estado da transmissão oral e escrita da língua portuguesa em Angola é de tal desordem e pobreza estrutural, que justifica a introdução temporária e urgente de um ano propedêutico no Ensino Superior e a revisão do currículo escolar nos níveis abaixo dele.

Até mesmo alguns dirigentes e administradores de instituições púbicas e empresas privadas apresentam um nível de deficiência morfo-sintáctica incompatível com a posição que ocupam e com o nível de estudos exibidos nas suas biografias, para não falar já dos nossos colegas da Comunicação Social.
É doloroso ouvir um apresentador de televisão dizer o seguinte: “cada um tem o nível de vida de acordo ao seu salário.” A expressão correcta é “de acordo com o seu salário”, pois a expressão “de acordo com” é uma locução prepositiva consagrada pela língua. Muitos desconhecem esta regra tão simples: o sujeito de uma oração nunca se separa do predicado por uma vírgula, como aparece demasiado no rodapé das notícias da televisão. Temos um sobressalto quando escutamos um director dizer: “nós já soubemos investir os lucros a empresa.” “Soubemos” é o pretérito-perfeito do verbo “saber” e o director quer é referir-se ao presente que é “sabemos”.
É confrangedor escutar um ministro ou governador provincial afirmar alto e bom som que “este projecto vai contribuir no desenvolvimento da nossa terra.” O verbo “contribuir” é um verbo regido por uma preposição simples e neste caso é a preposição “para” que lhe assenta bem. Também se lhe pode juntar a preposição “com”, no caso desta frase: “o João contribuiu com 200 kwanzas para o almoço”. E quando ouvimos um rapper cantar: “eu manto a calma”, aí quase entramos em choque. O verbo “manter” conjuga-se como o verbo “ter”, pois deriva deste, tal como os verbos “reter”, “deter”, “ater-se”, “conter”, “suster”. Portanto, o rapper devia cantar: “eu mantenho a calma”. Todas as pessoas que assim se pronunciam publicamente, oriundos de vários estratos sociais, denotam uma deficiência linguística. Uma parte da culpa é do sistema de Ensino que temos. Outra é dos próprios utentes da língua que não se esforçam por aprendê-la a título de auto-didactismo. Por exemplo, quem fez estudos na Inglaterra ou em Cuba tem a obrigação de, no regresso, ir aprimorando o português, lendo obras de escritores consagrados, jornais e revistas e estudando a gramática da língua.
Há uma incorrecção muito fácil de resolver que é o uso da crase da preposição simples “a” e do artigo definido “o, a, os, as”. Se estudarmos bem a gramática, é fácil compreender que só existe a crase com acento grave “à”, quando a preposição “a” se casa com um artigo definido do género feminino. Ora, como os artigos são determinantes, um artigo no feminino pressupõe um substantivo que o acompanha também no feminino. Daí que não se admite escrever: “dedico este livro à Deus”. Também não é admissível dizer que “chegou à Luanda”. Pois que “Deus” é masculino e então teria de escrever “ao Deus”, o que também é inadmissível porque Deus não é um mortal que anda connosco a comer ngongwenha na rua. E quanto a “chegar a Luanda” não tem acento grave porque “Luanda” é um substantivo próprio de género neutro. Do mesmo modo nunca se deve escrever: “Seminário sobre o Ensino Primário, que tem lugar de 23 à 30 de Maio”, porque os numerais ordinais são masculinos, quando aparecem isolados, a menos que sirvam de suporte a um nome feminino.
Ora muito bem, se canta na Sé. Estamos a propor ao ministério do Ensino Superior que aceite a nossa proposta de criação de um ano propedêutico, porque o estado da língua que a nossa Constituição consagrou no artigo 19, como língua oficial, encontra-se numa situação lastimável, a todos os níveis. Os estudantes universitários não conseguem elaborar as suas teses de licenciatura com qualidade, devido a esta deficiência linguística. Os jovens que saem da universidade e pretendem ser escritores não sabem sequer a diferença entre língua corrente e língua literária.
Há muita matéria e muita metodologia de estudo que devemos ensinar aos nossos jovens. Mas eles entram para a universidade já “aleijados” mentalmente no que toca à língua portuguesa. Portanto, entre perder um ano com o ensino exclusivo do português a ter de entregar ao Estado um cidadão deficiente, melhor é perder esse ano e ganhá-lo para a qualidade da Administração Publica ou Privada e ter gente melhor preparada para a elaboração de um discurso angolano eficiente.
É claro que a nossa proposta é mesmo de um Ano Propedêutico apenas dedicado à Língua Portuguesa: fonética, morfologia, sintaxe, semântica, estilística, acompanhadas de intenso exercício de leitura. Todos os dias do ano lectivo. A bem da Nação.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia