Opinião

Receios fundamentados das eleições autárquicas

Luciano Rocha

O poder autárquico angolano que começa, em princípio, no próximo ano, com a eleição dos que o hão-de exercer, continua a preocupar-me, acima de tudo, devido aos que podem vir a ser eleitos.

Autárquicas e autarquias são novidade entre nós, mas não é isso que me provoca dúvidas e receios, como, julgo, à maioria dos angolanos também não. Nem sequer a falta de experiência para as realizar e exercê-las. Nenhum ser humano nasceu a saber a andar. Aprendeu passo a passo, tombo a tombo, entre sustos e risos.
A novidade do poder autárquico apresenta-se como mais uma etapa, entre outras, na nossa caminhada que, como Nação, já percorremos. Com maior ou menor dificuldade. No meio de esperanças e decepções, enganos e desenganos, lágrimas e sorrisos. Quantas vitórias não foram já conseguidas à custa de derrotas?
Meus receios e dúvidas quanto ao poder autárquico não se devem à oportunidade de o implementar já no próximo ano. Tão-pouco ao modelo, nem à ausência de esclarecimentos exigidos sobre o que pode e deve ser. Sequer o que desejam que seja. Daí, maioria de nós saber nada sobre o assunto. A ignorância neste aspecto é tal que já ouvi defendê-lo e atacá-lo, num e noutro caso, por o confundirem com o poder popular!
No primeiro parágrafo escrevi que o poder autárquico angolano começa com as autárquicas do próximo ano. Rectifico. Tudo tem início antes, com as escolhas dos candidatos. Aí, sim, é que principia a longa estrada de uma nova forma de governação entre nós. Que pode ser ampla, devidamente planeada, construída, sinalizada, com todos os que a usarem a cumprir as regras claramente definidas ou... cópia das que abundam pelo país. Idealizadas para encher os bolsos a uns quantos. Que roubam, por exemplo, na espessura do asfalto. Ou até nunca a fazem, mas emitem ordens de saque para as obras inexistentes ou inacabadas.
As autarquias são forma de descentralizar o poder, de tornar os eleitos mais próximos dos que os elegem. Desde que constituídas por pessoas competentes, honestas, cientes da honra do dever público. Jamais por ladrões, oportunistas, semeadores de nepotismo, emproados, gananciosos, egoístas, insensíveis à dor alheia, mas amigos do alheio. Daí, a importância das escolhas dos candidatos. Para que a meio da campanha - ou do mandato - não se saiba que o escolhido afinal é larápio antigo, esbanjador, em proveito próprio, de bens públicos. Casos recentes, um pouco por toda a Angola, provam isso mesmo. Que a gula da gatunagem não tem limites, nem se atemoriza perante o combate à impunidade. Pelo contrário, ri-se dela.
A esta hora, aposto singelo contra dobrado, que há candidatos a candidatos que prometeram a parentes e amigalhaços empregos de não fazer nada. E a receber, antecipadamente, benesses em troca de favores que hão-de fazer “quando forem eleitos”...
A escolha dos candidatos a candidatos a autarcas - como para qualquer lugar público - tem de começar a obedecer a critérios mais rigorosos quanto à idoneidade do escolhido. Que tem de ser, obrigatoriamente, alguém sem nódoas criminosas. Nem no presente, nem no passado. As primeiras eleições para o poder local devem marcar o início de uma nova era nesta nossa terra de Angola. A Comissão Nacional Eleitoral pode ter um papel importantíssimo nesse desígnio, mas os partidos e outras forças políticas concorrentes também. Por constituírem os primeiros filtros a separar águas límpidas das conspurcadas.
O combate ao nepotismo - das principais armas dos marimbondos no ataque ao erário - pode ganhar fôlego novo e redobrar o prestígio na hora de serem escolhidos os nomes a figurar das listas de candidatos a cargos no poder autárquico.

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