Opinião

Recuperação de valores e a indústria artesanal

Luciano Rocha

A pequena indústria artesanal, que já foi ganha-pão de tantos angolanos, caiu em desuso por várias circunstâncias, uma das quais, não a única, o surgimento do plástico, que tomou conta das nossas vidas.

Numa altura em que tanto se apregoa a urgência da recuperação de costumes e valores, muitas vezes sem que quem o faz saiba o que diz, quanto mais contribuir para a materialização da intenção falada da boca para fora e que se conhecem, como nunca, os malefícios do plástico, a par da importância de diversificarmos a economia para nos tornarmos menos dependentes do estrangeiro, estranha-se que não se tente incrementar o fabrico artesanal de uma série de utensílios de uso diário, aproveitando a matéria-prima nacional.
A indústria artesanal não requer grandes investimentos, dispensa importações de matérias-primas e formadores contratados, com os custos e resultados que todos conhecemos, não raro “mulas” de divisas, detentores de diplomas e currículos vazios de verdade, preenchidos à passagem do equador.
Há por aí, ainda, velhos mestres artesãos e artesãs, capazes de ensinar jovens sem profissão, desempregados de longo tempo, a fazer, por exemplo, cordas para vários fins, balaios, vassouras, abanos, porta-moedas, carteiras de mão para senhoras, cortinas, telhados, pequenas mesas, cómodos, cadeirões de mateba, a folha da matebeira, pau que havia em profusão em muitas das actuais províncias, da qual se aproveitava, igualmente, a seiva para fazer maluvo.
Entre as matérias-primas que já foram utilizadas - e podem voltar a ser - em fabricos artesanais sem necessidade de saída de divisas, que tanta falta nos fazem, nem de importar “especialistas”, há outra variedade enorme de árvores, como a mafumeira, de que se faziam os dongos.
Muitas destas árvores desapareceram, também elas, por uma diversidade de factores, entre os quais a ignorância, característica do novo-riquismo, que, como doença peganhenta, invadiu a sociedade angolana, descaracterizou-a, derrubou árvores, algumas seculares, destruiu pequenas lavras, que abasteciam, diariamente, as cidades com produtos frescos. E passamos a ter de importar o que já tínhamos tido. O que deu um jeito enorme a uma corja que se promoveu a elite auto-avaliada pela fortuna de que dispunha, sabemos todos como.
O que vinha de fora chegava e sobrava-lhe para o que tinha à mesa e permitia-lhe, entre outras benesses, comissões de importação. Jamais, os que compunham - compõem - esta súcia de “colarinho branco”, imaginaram que um dia lhes fossem pedidas contas, mas começaram já a ser “chamados à pedra”. Mesmo que haja os que consigam escapulir-se, usando os mais variados estratagemas, nem todos o conseguirão.
O mal que fizeram - fazem ainda - a este país, a este povo, é enorme. Somente daqui a muito tempo se há-de poder avaliar o tamanho real. O que sabemos agora é que não é tempo de “chorar sobre o leite derramado”, mas de “arregaçar as mangas” e tentar que as gerações vindouras tenham uma Angola com menos desigualdades, mais solidária, melhor para viver, o que, de todo, não é difícil.
Para isso, porém, é indispensável que deixe de ser um país de tantas intenções anunciadas, mas de mais trabalho, acções concretas. Também sem um único plástico que nos mata diariamente, instante a instante, nem tanto cimento armado. Pelo contrário, com mais lavras e pomares a rodearem cidades e vilas, pequenos negócios estruturados, artesões que o esculpam nas obras que fazem. No fundo, uma Nação com alma. E a angolana é enorme, com horizontes, mas sem limites.

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