Opinião

Reerguer os destinos comuns diante da xenofobia

Adriano Botelho de Vasconcelos

Os intelectuais da África do Sul não podem permitir que o seu país seja um laboratório de ensaios de terror, se quiserem crescer, e, naturalmente, se pretendemos uma plena integração.

Existe um legado de Mandela para lá das fronteiras do seu país, é o que nos falta erguer todos os santos dias, para que o homem de todos os quadrantes geográficos sinta que faz parte de um destino e futuro comuns.
Martin Luther King Jr. tem uma frase lapidar que permanecerá intocável para todo o tempo do mundo: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Fosse seguida essa citação, não teríamos os holocaustos, os fuzilamentos que se seguiram às purgas políticas em África, porque “Nossas vidas começam a acabar no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam” (MLK). Esses acontecimentos trágicos na África do Sul são insanos. Mandela, no auge do conflito interno, contra a vontade da sua segurança, visitou a zona dos maiores tumultos, foi segurar e chorar o corpo de jovens mortos. Nas conversações com Winnie, a sua ex-esposa, implorou que recuasse nos seus intentos e lhe oferecera, como única saída, a paz, que é o maior bem que o ser humano pode ter. Não vejo os políticos e intelectuais sul-africanos a limpar o sangue das vítimas, a dar alento e ombro aos estrangeiros que sofrem. Estão acuados, e, diante do clamor do mundo, continuam sentados nos seus gabinetes. Tenho receio de que os cidadãos das zonas urbanas onde mais grassa o desemprego, infelizmente comecem a entrar numa prisão maior que as paredes e campos de concentração onde estiveram desterrados os presos políticos. O que Mandela temia de si próprio parece ser um drama quase colegial, ao filosofar que os passos que o levariam à liberdade também deixariam para trás a “amargura” e o “ódio”, se não, é como se ainda estivesse encurralado na “prisão”. Se entendermos a filosofia desses grandes líderes, nós os intelectuais jamais poderemos fingir que está tudo tranquilo e que a ordem do bem é um processo natural que não precisa de cidadania. Só a indignação nos torna diferentes e permite que tenhamos um olhar severo sobre a nossa própria condição de seres imbuídos de sentimentos. Com a indignação vem a pergunta se merecemos ser parte desse universo que tem já um estágio de evolução e de equilíbrios que devem ser mantidos para que não voltemos aos tempos da antiguidade.
Recentemente ouvi muitos africanos com verbo fácil e rápidos em apontar os culpados da tragédia dos imigrantes da África Subsaariana que procuram entrar na Europa através das rotas marítimas do Mediterrâneo: as ex-colónias e não só. Essa migração para a Europa cresceu de maneira drástica nesta última década, com a fuga de um milhão de pessoas desde 2010, segundo um relatório publicado pelo instituto americano “Pew Research Center”. O repúdio das comunidades fronteiriças europeias à entrada de massas de migrantes vindos do nosso continente e do Médio Oriente criaram um espaço político antes impensável: o ultranacionalismo e o populismo. Não se dá o devido tratamento às causas que configuram esse fenómeno que envolve continentes, e, infelizmente, não está presente nas políticas dos Estados africanos que contam com elevado número de cidadãos que fogem do seu próprio país. E fogem por uma causa que é endógena a todas as economias africanas: o desemprego acima dos 15%. Sendo uma causa comum, os actores principais que são os políticos e as suas políticas não resolvem os factores geradores de défices e de estagnação, opções que nunca são postas em causa até por eles próprios como dádiva da lucidez. Na aparência, todos os líderes parecem estar imbuídos de uma suposta capacidade de realização das odisseias que há muitas décadas mal têm saído do papel porque a ameaça é permanente.
A explosão demográfica não controlada é um dos factores corrosivos de muitos países africanos e que leva para os valores negativos os registos decrescimento que se situam nos 4% do PIB. Essa discrepância lançará novas gerações que não vão beneficiar de uma rede de pré-escolares, de escolas de qualidade com opções de saídas técnico-profissionais. Não tendo essa base formativa, como estratégia dominante sobre todas as despesas, os países não terão uma nova geração melhor preparada nas universidades e capaz de inventar e aplicar novas tecnologias e pujança nas engenharias que movam os índices de atraso. São países que, ao não terem uma melhor política de urbanização que universalize o ambiente social condicente aos valores de progresso, estarão a aumentar o número de musseques, tornando as capitais de Joanesburgo, Lusaka, Lagos e Luanda, e tantas outras capitais, nas maiores praças da degradação social e de desperdício de energias, porque milhares de metros cúbicos de betão, todos os dias, serão lançados sem uma linha reitora arquitectónica e de urbanismo que melhore as suas vidas deixando de serem presas fáceis do populismo. E nem me debrucei o bastante sobre o facto de todos esses países viverem a corrosão dos salários, já que as suas moedas, quando colocadas nas paridades flutuantes, sofrem com a desvalorização. Esses fenómenos serão geradores de momentos de instabilidade e é urgente que se discuta os países e a política, no seu melhor, procure programas de crescimento.
Mesmo diante desse quadro endémico das nossas actuais economias, os africanos comportam-se como se fossem senhores da razão, exigimos que os europeus equacionem uma saída para a crise humanitária o mais rápido possível. “Uma vergonha à porta da Europa”, dizem os líderes mais inspirados. Estamos quase certos de que os profissionais da política certamente procurarão exigir dos europeus os votos de humanismo. Mas somos incapazes de exigir de nós próprios o amor ao “outro” e até olvidamos as soluções programáticas que permitam que a economia cresça e melhore as condições sociais de quem governamos. Está mais que provado que a vida do político não é só sonhar sentado numa poltrona de oiro. Para a maior parte dos países do nosso continente, está a esgotar-se, de forma vertiginosa, o tempo em que se vendiam, com a argúcia dos ideólogos, os oásis através de apelos nacionalistas. Os seus discursos não terão os holofotes suficientes, os cidadãos africanos finalmente parece quererem ter ao seu lado os líderes que não parem de trabalhar, que falem da esperança, mas baseados nos dados reais da vida das comunidades. E não pretendem ver o líder sentado como se esperasse os seus aplausos ou exibindo, a toda hora, uma calculadora de uma Agência que os proteja na cábula definidora do que será a economia.
No caso, os nigerianos, moçambicanos, somalis e tantos outros que criaram empresas, os imigrantes empregados, infelizmente deixaram de ter o direito de legitimidade de representação. Não falo dos imigrantes que engrossam os sindicatos do crime, falo dos que deixaram parte da sua juventude, do seu empenho, das suas habilidades de negócios e técnicas básicas oficinais, e que, neste momento, são valores que não contam como passaporte de sobrevivência. Estes perdem o essencial, até o direito à vida, se não abandonarem os seus bens. Porque existe uma falta clara de repressão policial que seja eficiente em fazer recuar os gangues organizados, ou, simplesmente anulem, com o poder da educação e da civilidade, os instintos primários muito comuns nos agregados de baixo nível que há muito deambulam nos guetos à procura das saídas sociais.
Não se pode aceitar o inverso, a retaliação pode ser geradora de “guerras”pelo direito de defesa soberana da vida dos cidadãos em zonas de holocausto. O rastilho deve ser parado porque os africanos estão diante desse risco fatal. Pode muito bem acontecer o afastamento do destino comum do nosso continente. Cada cidadão dos países que sofrerem essas atrocidades, no interesse civilizacional, deve responder com sinais claros de protecção dos estrangeiros. Esse eco de humanismo deve ser passado nas escolas, nas universidades, nas igrejas. E todos os poetas, lá onde existem escadarias e silêncios, devem poder desfazer esse ódio que nos envergonha enquanto cidadãos do mundo.

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