Opinião

Refugiados

Manuel Rui

Migrantes, refugiados ou deslocados são palavras que nos incutem a ideia sobre pessoas que tiveram a necessidade de sair do seu país para demandarem outro.

Muitos que no velho continente e não só, são cristãos e esquecem que Jesus foi migrante com seus pais Maria e José para o Egipto, fugindo da Judeia para não ser morto pelo rei Herodes. Isto foi lembrado pelo Papa Francisco, no Dia do Refugiado fazendo um apelo ao mundo para acolher os refugiados. E são várias as passagens da Bíblia, desde Génesis ao livro do Êxodo que tratam da matéria sempre com o humanismo de receber e cuidar dos refugiados.
Mas, nos nossos dias, existem várias categorias de migrações. Motivadas por guerras, perseguições religiosas, conflitos étnicos, perseguições politicas ou ideológicas ou demanda de melhores condições de vida com trabalho, estudo, saúde ou bem-estar. E o mundo inteiro fala nesses 70 milhões de seres humanos. Dizia um refugiado “falam sobre nós nos parlamentos mas nós não temos voz.”
As migrações levantam questões na organização do espaço, nas relações sociais e na cultura. Quando se migra, carrega-se todo um arsenal idiossincrático, história, memória, língua, cultura e religião.
Aqui começa a questão principal. Os refugiados fogem do terceiro mundo, muitas vezes de países potencialmente ricos. Os casos que são mais badalados nos nossos dias são a dos países ao sul do México que atravessam aquele país até ao norte para almejarem passar a fronteira com os Estados Unidos da América para o “el dorado.” E o problema passou a ser tratado de tal maneira pelo presidente Trump que continua a batalhar pelo muro. Quem imaginaria que depois da Guerra-Fria, da queda do Muro de Berlim e as imensas pontes de diálogos se voltasse aos muros, quem imaginaria que até em países da Comunidade Europeia se colocasse arame farpado para não deixar passar refugiados?
Certo que em defesa dos mais fracos não podemos condescender com um êxodo desregrado. Um país não é obrigado a receber migrantes sem critério. Há quem diga que a melhor forma de tratar a emigração é a melhoria de condições dos países de origem. Outros falam mesmo que há os que ficam no seu país para lutar contra os regimes autocráticos em vez de fugirem pois levada ao extremo as migrações levariam ao despovoamento, ausência de quadros e todo um painel de várias crises e desgraças inimagináveis.
Outra questão é a colocada por países de cultura cristã sólida e secular. A chegada de pessoas de outros credos e costumes levanta o problema da sua inclusão ou outro, de ilhas que falam outra língua, têm outros costumes mas têm de se subordinar às leis do país que os acolheu. Também a questão demográfica porque há emigrantes vindos de regiões onde um casal tem seis ou sete filhos e como os europeus quase já não fazem filhos, não longe seria o tempo em que o “outro” estaria em maioria, o outro que se obedecer à Sharia, código de leis do Islão não havendo separação entre religião e Estado estará em contradição com o Estado acolhedor. Uma ressalva: tem-se omitido que os refugiados são a força de trabalho para limpar o lixo e outros serviços similares…
A viragem do mundo após Setembro da queda das torres em Nova Iorque, a guerra e homicídio compensatório do presidente do Iraque face ao falhanço de Bush em aprisionar ou matar Bin Laden veio complicar as relações humanas em todo o mundo com o culto do medo e do terror. Posteriormente começaram os ataques de fundamentalistas árabes em capitais europeias e o mundo ficou ainda mais diferente com a reinvenção das guerras santas, a primavera árabe de “inspiração” ocidental em ordem à desestabilização desses espaços de onde agora vêm, de ricochete, refugiados e bombistas.
Nós aqui em Angola podemos passar a pé a fronteira com a Zâmbia e sermos recebidos com uma comida. Também anda por aqui muito migrante que trouxe dinheiro e virou milionário desses armazéns que têm tudo. Gente da Mauritânia, Líbano ou Senegal. Outro dia um amigo meu do Burkina trouxe-me um conterrâneo seu que queria comprar um armazém mas nos termos da lei. Perguntei-lhe se tinha cartão de residente. Disse-me que tinha de refugiado…há sempre de encontrar um angolano que facilita nos papéis mas isso é outro assunto.
Mas voltando aos refugiados, principalmente àqueles que são salvos por barcos de organizações não-governamentais que depois têm de demandar um porto que os receba. Infelizmente a máfia é europeia, a máfia das viagens irregulares em barcos de borracha muitas vezes com peso a mais e sem coletes salva-vidas. Os europeus é que fabricam e vendem os barcos e as “passagens” são em euros.
O mediterrâneo sempre foi definido como berço de civilizações, mar da Europa e África, berço de civilizações que marcaram os caminhos da humanidade. Hoje já não é mais isso. É um cemitério continental. Africanos já haviam morrido muitos no mar de entre os milhões que daqui foram levados como escravos.
Hoje, o mediterrâneo é o novo cemitério de África.

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