Opinião

Regressar à mãe pátria

Adriano Mixinge*

Depois de ter vivido uns bons anos lá* fora, não é a primeira vez que regresso ao país. Depois de Havana, Paris e Madrid, a cidade de Luanda será a lente através da qual verei o mundo. Não é um eufemismo: onde queira que eu estivesse Angola sempre viveu em mim.

Como a maior parte dos filhos da terra, julgo que, por dentro, estou feito de um chão afectivo e cultural rochoso: é nele que está a minha verdadeira morada, o epicentro de todas as operações vitais, reflexivas, existenciais e, quem sabe, até cosmológicas. 
Nos anos 60 do século XX, regressar à mãe pátria confundia-se com a volta aos mitos essencialistas, à ilusão da identidade pura, àquilo que era autóctone e que nos diferenciava do poder colonial, do exógeno e da metrópole. O “Cahier de retour au pays natal” de Aimée Césaire reflexiona sobre a complexidade e as armadilhas deste regresso unindo, numa perspectiva universalista, o destino do negro ao devenir do mundo.
Regressar nunca foi fácil e ainda que não o pareça, às vezes, para alguns chega até mesmo a ser impossível: depende muito do tipo e das consequências da viagem que realizamos. Para quem não escolheu confundir o seu umbigo com o do seu país natal, tentar regressar é, na verdade, qualquer coisa que, na maior parte das vezes, fica cristalizada numa intenção que nunca se consuma. É um risco que todos os exilados, expatriados, diaspóricos - e afins- correm: nunca regressam ao lugar de partida, as pessoas que antes conheceram depois não são realmente as mesmas, os sítios mudam.
Com os anos, tudo se transforma, deixa de ser o que antes era. No que a mim respeita regresso tanto ao país real como ao novo sonho de país, preste a lidar com os seus acertos, as suas imperfeições e as suas miragens.
Nos anos 90 do século passado, no período pós-apartheid, regressar à mãe pátria não se circunscrevia somente ao regresso ao próprio país do interessado, mas, também, a inserção útil deste no destino colectivo de um continente e as estratégias de como enfrentar os dilemas da globalização: “Season of Migration to the South” de Kole Omotoso representa esta inquietude que, na verdade, forma parte de um sonho maior, o da sistematização do pensamento e do saber endógeno africano.
Mas, o que significa regressar à mãe pátria? Ainda faz sentido pensar nestes termos?  Quais são os principais dilemas com que se enfrenta quem regressar ao seu país natal?
Unidos na sua essência, quanto mais madura estiver a construção da Nação, mais fácilmente se consolida a ideia de pertença a uma pátria. Tenho a impressão que, nos últimos quarenta anos, avançamos mais na edificação do Estado do que na construção da Nação: em primeiro lugar por sermos, à partida, uma “Nação de ex-Nações” (Agostinho Neto), o que torna o processo mais complexo; em segundo, por termos sido apanhados na roda do fenómeno da globalização que, pela sua natureza, tende a esbater os localismos e, em terceiro, porque dia após dia vai se confirmando o ideário martiano de que “pátria é a humanidade”.
“Mãe pátria” é, pois, uma ideia moribunda, imprópria para entender as transformações de Angola e do mundo de hoje: interpretar o novo sonho de país é o mais prático e fascinante.
Depois de ter vivido uns bons anos lá fora, regresso a Angola para ao país dos afectos unir o país físico e geográfico, estar no turbilhão da nossa actual história sociocultural, económica e política. Muitos angolanos que vivem lá fora têm medo de regressar e gerir a incerteza e o desafio da integração, temendo ver frustradas as suas expectativas de realização profissional: o país ao que regressariam não é o país que deixaram.
Não faz sentido pensar o novo país, o real e ou o sonhado, com as ferramentas do passado. Regressar à “mãe pátria”, - uma preocupação central no discurso independentista africano dos anos 60 -, passou a ser uma questão de somenos importância.
A relação entre os que estão dentro e os que estão fora, do país, passou a ser analizada, desde a perspectiva da reconciliação dos Estados com as suas diásporas: a absorção, sempre que possível e necessário, dos seus recursos técnicos, cognitivos e humanos mais qualificados em todas as áreas do saber e da ciência, da arte e da cultura. Desenhar políticas gerais de integração social dos retornados e ou até mesmo de caça-talentos nas diásporas é o desafio com que, tarde ou cedo, a sociedade angolana terá que se enfrentar. Muitos dos angolanos que vivem lá fora desejam regressar: sabem que, bem ou mal e por difícil que seja como aqui, não estarão em nenhum outro sítio ajudando a construir o país que todos sonhamos.
* Historiador e crítico de arte

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