Opinião

Reminiscências inquietantes

Arnaldo Santos |

Talvez por valorizar demais a Paz, dessa Paz da qual tive a (des)ventura de conhecer, as reminiscências de tempos de fúria e morte não me entusiasmam.

Prefiro a violência inevitável dos filmes e novelas em que os artistas nunca morrem e até fazem propaganda das suas representações na tela. Convenhamos que não cuia estar a escutar o Presidente João Lourenço nos jardins do Palácio, na sua primeira entrevista colectiva após os seus primeiros dias de governação - que para a grande maioria dos cidadãos é assunto sério e de uma grande acuidade - e subitamente é colocado um pedregulho no caminho da sua exposição.
Definitivamente, não havia nenhuma razão para alterar o curso da entrevista com vista a saber do próprio Presidente o que pensava do que tinha melhorado ou seria passível de melhorar, quando alguém transportou abruptamente o rumo para um outro tempo. Era algo sobre uma carnificina ocorrida em 27 de Maio de 1977, aquando da vigência do Presidente Agostinho Neto.
O jornalista queria saber o que seria preparado para comemorar essa data da qual todos os angolanos de boa fé evitam recordar. O despropósito evidente obrigou mesmo aos mais inocentes às piores conjecturas. Reconheço que na nossa existência como Nação independente, ainda curta, há episódios confrangedores, mas devemos comemorar?
O fratricídio que resultou da tentativa contra-revolucionária contra o Presidente Agostinho Neto deve ser objecto de investigação histórica, assim como outros que infelizmente deram origem a monumentos de triste memória como o Cemitério Monumento na cidade do Cuito.
Presumo que há pessoas, até com projecção política, que não pensam deste modo. Estas figuras não seriam bons embaixadores para representar esta nova Angola, que pugna bravamente para resolver alguns problemas básicos como os do Ensino e Saúde. São questões pungentes sobre as quais o nosso Presidente teve a clarividência de não referir na sua entrevista. Esses problemas são tão ingentes que fazem com que as reminiscências dos tempos de cólera mereçam a melhor atenção de maneira a garantir uma boa prevenção sanitária. É claro que o Presidente João Lourenço tão pouco se deixou confundir. Nem nesse assunto, nem no futuro da zona verde da Maianga, onde praticamente só o meu pau-de-mulemba, vulgo mulembeira, resiste com os espíritos pacíficos do lugar.

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