Opinião

Resgatar a agricultura

Carlos Calongo

Como que um acto sacramental, por altura da época da colheita agrícola, é comum ouvirmos reclamações de apodrecimento dos produtos, na sua maioria, por falta de capacidade de escoamento, situação motivada pela dificuldade de circulação no nó rodoviário que interliga os centros de produção e os de consumo.

Infelizmente, os dados da presente época agrícola ainda não alteram o paradigma e, volta e meia, o refrão se repete, com a necessária ampliação dos órgãos de comunicação social que, entre a realidade profunda da questão e o que divulgam, criam um vazio considerável entre o universo do que existe e não se comunica, por razões óbvias.
Os exemplos existem à mão de semear e não há qualquer publicação generalista que seja, com espaço para os enumerar, ao ponto de cair na tentação de falhar por defeito.
Entra ano sai ano. Campanhas atrás de campanhas. Na hora da colheita, a música de sempre, como se fosse o refrão “ Angola Avante” que é parte do Hino Nacional da República.
Por falta de escoamento X toneladas de diversos produtos correm o risco de se estragar.
A frase é quase que um provérbio nos órgãos de comunicação social.
Na sua maioria, os apelos são dirigidos ao Governo. Se calhar, ainda na ressaca do velho e tradicional hábito do “estado providência”, cuja reconfiguração, muitas mentes se rejeitam a aceitar, e com tal atitude, mandar às “calendas gregas” os padrões da economia de mercado, típicos das sociedades democráticas.
À mesa dos consumidores, quando os produtos chegam, são acompanhados de facturas que “adulteram” o seu preço real, facto derivado da ausência das condições necessárias e imprescindíveis para que se cumpra, com normalidade, a cadeia agrícola que, noves fora outros elementos, se estabelece entre a produção e o consumo.
Mais do que isso, sem que se entenda como um acto de atribuição de culpas à uns poucos desonestos que na “velha República”, agiram com os olhos na importação de tudo e mais o resto, a actividade agrícola doméstica esteve confinada à um mero exercício de diversão, pois interessava o acumular de cambiais, por conta da importação de tudo e mais o nada, num quadro de desonesta competitividade.
Claro que o momento não é aconselhável para a busca de culpados para o estado em que se encontra a nossa economia, que quase atribui valor de nulidade à agricultura, que até já foi “profetizada” como a base, estando na indústria o factor decisivo. 
Estando na moda a Operação Resgate, faz todo o sentido o resgate deste sector nevrálgico da economia angolana, e escusado é dizer que não nos falta terra para o efeito, e mais do que ela, condições climatéricas naturais, que são daquelas abundâncias com que o Criador do universo nos gracejou, que infelizmente, por falta de uma estruturação estadual consistente, dela não temos tirado o melhor proveito, apesar do tudo que tem e dá, revisitando a concepção musical de Dom Caetano, sobre o nosso chão.
E ainda bem que na nova arrumação da política doméstica existe manifesta vontade para se alterar o paradigma e devolver o papel que, por direito, a agricultura detém no mosaico social angolano, cujo chão fértil nos obriga ao seu melhor aproveitamento.
E não é nenhum exercício de adorno político, atribuirmos os louros deste novo olhar à agricultura, ao executivo de João Lourenço, que numa acção de aplaudir, decidiu-se pelo aumento da fasquia dedicada ao sector, para números que, apesar de ainda não resolver o problema num estalar de dedo.
Para tal, somos instados a entender o facto como um forte e firme aviso à necessidade de se resgatar a agricultura, por dela depender em grande medida, a sobrevivência de um número considerável de angolanos, sendo este o seu contributo para a alteração da estatística dos níveis de pobreza e subnutrição que grassam pelo país, e que são dos grandes problemas da agenda social dos angolanos.


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