Opinião

Retrato do ano novo nos cartazes publicitários

Carlos Calongo |

Por altura da quadra festiva, reservei parte do tempo que dispunha para a reflexão do que de bom e mau aconteceu na minha vida, nas mais diversas vertentes, a fim de olhar, de forma redobrada, para certos cartazes colados em várias ruas da capital do país.

Por altura da quadra festiva, reservei parte do tempo que dispunha para a reflexão do que de bom e mau aconteceu na minha vida, nas mais diversas vertentes, a fim de olhar, de forma redobrada, para certos cartazes colados em várias ruas da capital do país, nos quais se anunciavam a realização de festas, sobretudo da viragem do ano, altura marcada para o tradicional “Kandandu” de satisfação pela colecção de mais 365 dias de batalhas, sacrifícios, alegrias, tristezas, perdas, conquistas, idas e vindas, enfim…coisas más e boas.
Descontando esta áurea tradicional da vida do ser humano, pelo menos à nossa maneira, apraz-me manifestar, em primeira instância, indignação pela forma anarquizada como muitos cartazes foram (e também o são em outras ocasiões), espalhados por Luanda.
Este processo conta com a prestimosa ajuda dos taxistas, cuja parte traseira das viaturas serve de “boca de aluguer” de um produto que, ao que define a lei, se encaixa no exercício comercial e, portanto, devia ser rentável aos cofres do Estado, pelo que não se faz deselegante o pedido às instâncias de direito no sentido de empreenderem uma mais vigorosa acção de fiscalidade, sob pena de que, em actos considerados minúsculos, poderem advir grandes e graves problemas, só por assim dizer!..
E sobre o assunto que faz o mote desta peça jornalística, chamou-me atenção, para além da exorbitância do preço dos convites, o despudor com que a figura feminina é apresentada nos cartazes, algo qualificável como a vitimização da mulher, feita chamariz do prazer de mais conquistar a audiência, que qualquer outro histórico, tradicional ou de outra espécie que à data deve ser agenciado.
Trazendo o assunto para este fórum, o faço em jeito de recomendação para olharmos para o fenómeno, com alguma agudeza, pois a publicidade constitui, hoje em dia, um bom instrumento de análise e compreensão da cultura de um povo.
A publicidade, uma vez interpretada como um dos mecanismos fundamentais de suporte e manutenção da organização da vida colectiva, tocando as mais diversas áreas da vida social, não deve ser vista apenas no campo da promoção da venda de produtos, serviços e bens, mas também a nível dos comportamentos, atitudes, escolhas e representações, que reflectem a vida colectiva.
Pressupõe isto, ainda na senda do que vimos defendendo, como sendo a necessidade de moralização da sociedade, que a aceitação explícita ou implícita de coisas do género nos remete, mais uma vez, para a perda de valores que vão descaracterizando a nossa sociedade, neste caso por via da exposição dos atributos íntimos concedidos à mulher, pela omnisciência de uma criatura que tem o valor que tem para o mundo católico – romano, protestante e outras tantas denominações religiosas - no caso Deus, para quem a mulher, enquanto ser humano, foi feita à sua semelhança, e com um dos propósitos de ser coadjutora do homem.
Esta perspectiva descarta, desde já, o sentido reduzido atribuído ao valor da publicidade, não compreendida à luz do que a academia defende como sendo linguagem ou técnica de comunicação que gera contextos sociais significantes e de quem as ideias devem ser consideradas para além do texto e da imagem.
Sinto-me tentado a evocar J. Baudrillard, que na sua obra “ O sistema dos objectos”, defende que a publicidade intervém na construção social da realidade porque obedece a uma lógica que deve ser aproveitada para fins proveitosos.
Conjugar esforços no sentido de se moralizar a sociedade, deve ser uma tarefa de cada pessoa e sobretudo de cada família, isto em alusão à mensagem que o Chefe do Executivo angolano dirigiu à nação, por ocasião do fim de ano de 2010.
Para terminar na senda da abordagem, fica no ar a questão: é falsidade que a nossa juventude está a crescer revendo-se nos paradigmas produzidos nos cartazes publicitários das suas festas e outros ambientes de diversão?

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