Opinião

Reviver Moçâmedes

Manuel Correia |

Há cerca de três meses, voltei a ver uma figura emblemática da sociedade moçamedense, o que me deixou deveras emocionado, porque há cerca de 50 anos que não a via. Não a revi pessoalmente, mas por intermédio da nossa televisão pública, ao ser entrevistada a propósito da requalificação do bairro Sambizanga.

Estou a falar da dona Fátima Ananás, amiga que foi (e é) da minha mãe, dona Sara Teixeira, e de outras senhoras, em meados da década de 60, uma das quais, a dona Rosa Diogo foi a enterrar  no dia 10 de Outubro último, no cemitério da Santa Ana, em Luanda (paz à sua alma). Era um grupo de mulheres muito unidas e solidárias, apesar de não terem laços familiares, as quais se juntaram as senhoras Maria Cruz, Joaquina, Júlia, esposa do senhor Lopes, jogador da equipa de futebol do bairro Forte de Santa Rita e, mais tarde, do Independente de Porto Alexandre (actual Tombwa). Ele era detentor de um potente remate e tinha muitas semelhanças físicas com o nosso Joaquim Dinis “Brinca n’Areia”. Até pernas arqueadas tinha, aquele homem. E retive gravadas na memória as suas características de forte rematador porque num desses dias, enquanto assistia a um jogo de futebol, junto à linha de fundo e sentado numa pedra, levei uma bolada na cara, chutada por ele, que quase me levava desta para melhor (ou pior?) aos meus 5 ou 6 anos de idade.
A maior parte dessas senhoras, à semelhança da minha mãe,  era proveniente da capital do país e foi para aí viver por ter acompanhado os respectivos esposos,  funcionários públicos, transferidos para aquelas terras. Não sei porque é que não conheci a Kanguimbo Ananás se a minha mãe era muito ligada à dona Fátima. Talvez pela nossa tenra idade tivéssemos passado despercebido um da outra e vice-versa. Mas o reencontro, embora virtual, com a dona Fátima Ananás, fez-me “viajar” para aquela terra pacata onde vivi parte da minha infância nos emblemáticos bairros Forte de Santa Rita e Torre do Tombo, dos quais guardo gratas  recordações, mas também um episódio muito triste que abalou a sociedade moçamedense de então.
Tratou-se da morte, em circunstâncias trágicas, do senhor Amaral Gourgel “Boa Bola”, que a par do meu avó Franco, atendiam as necessidades de saúde da população autóctone daquela urbe e arredores. E foi numa das suas missões de solidariedade, de amor ao próximo e de ida ao encontro dos pacientes, que quando se deslocava a uma localidade fora da cidade de Moçâmedes, para mais umas consultas ao domicílio, a bordo do seu motociclo de marca NSU, que o mais velho “Boa Bola”, calvo e de compleição física forte, perdeu  a vida num trágico e quase inexplicável acidente de viação.
Irmão mais velho que foi do nosso saudoso Beto Gourgel, este que me confidenciou, já nos anos 90, a origem do pseudónimo do seu kota, adepto ferrenho da modalidade de futebol. Contou-me o Beto que sempre que estivesse a assistir a um desafio de futebol, quando o avançado recebesse um bom passe do seu colega de equipa, o mais velho dizia “boa bola!”, daí a razão do pseudónimo que perdurou até a sua morte.
Estes dois kotas (“Boa Bola” e avô Franco) inspiraram-me ao ponto de, nas nossas brincadeiras inocentes, eu fazer sempre o papel de “enfermeiro” Eu próprio “fabricava” as seringas com pedaços de arame de 10 a 15 cm de comprimento, aos quais dava forma pontiaguda e lá ia  atendendo os meus “pacientes”, sendo a minha “especialidade” predilecta as injecções na veia (endovenosas). Picava mas não chegava a ferir, embora doesse. Aplicava injecções não só aos meus “doentes”, mas também a mim próprio.
Das boas recordações, vem-me à memória as idas à praia com vizinhos da minha faixa etária, à compra de peixe fresco directamente das mãos dos pescadores, acabadinhos de sair da água. Mandados pelas nossas mães. Da compra de pão e outros produtos na loja do senhor António Padeiro; de carne e ossos para sopa no talho da esquina; das idas ao parque infantil, ao jardim zoológico e, principalmente, às Festas do Mar.
Outro episódio que me marcou foi a primeira e única vez que provei carne de tartaruga, confeccionada e dada a degustar pelo vizinho Zé Pescador. Regressei a Moçâmedes 18 anos depois, já nas vestes de profissional  deste Jornal, para fazer a cobertura de uma reunião nacional de  comissários políticos das FAPLA. Fui com a recomendação de contactar o comissário político provincial do Namibe, de apelido Naval, a quem não conhecia.
A primeira pessoa a quem me ocorreu perguntar, porque tive a intuição de que se tratava da entidade que procurava, foi o comissário político João Lourenço, nosso actual Presidente da República que, na sua simplicidade peculiar, esboçou um sorriso e respondeu: “Não sou o camarada Naval”. Daquelas respeitáveis senhoras que citei no início, só consegui rever a dona Júlia Lopes. Lá estava ela no aeroporto local, trajada de uniforme da OMA, integrando um grupo de colegas suas que  procediam a recepção dos diferentes delegados  ao evento.
Um abraço forte ao governador Carlos da Rocha Cruz, o “Caito” dos tempos da JMPLA, ao Vlademir Prata, nosso jovem correspondente na província do Namibe, e um até breve para Moçâmedes e suas outras gentes.

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