Opinião

Riso de esperança de Dona Linda

Luciano Rocha

Dona Linda fez agora 82 anos, mas, garantiu-me - enquanto abanava o fogareiro de assar banana, batata-doce, bombó, jinguba, - prega botões, cozinha, menos funji, batido agora por Santa, a filha que não lhe nasceu. 

Dona Linda, diz-me, sempre foi assim, estreitinha, cambuta. Fala a sorrir, com olhos inundados de brilho de esperança que põe em palavras que descrevem a certeza de uma vida melhor para filhos, netos e bisnetos. Os de sangue e os de afectividade. Família não são apenas os nossos antepassados e descendentes. Também se constrói com aqueles com quem nos cruzamos nos atalhos da vida. Em tempos de acalmia, sem nuvens de luto, com boa vizinhança, trocas de sal e açúcar, confidências, risos. Mas, acima de tudo, em dias e noites de angústia, incerteza, pavor até. Sem nada para dar e receber que não seja afago, coragem, solidariedade.
Dona Linda tinha acabado de dobrar os 40 de idade. Viera a Luanda para ver o filho, menos vinte do que ela,  mecânico numa oficina na Baixa, atropelado ao tentar atravessar a então Avenida Brasil, hoje Hoji Ya Henda, quando regressava a casa, no Rangel. A confusão dos tiros apanhou-a nas redondezas, sem saber para onde ir. Porta amiga abriu-se como magia . Entrou. Deitou-se no chão de terra batida. Era mais um corpo. Vivo, mas inerte, mudo.  À volta dela outras mulheres, também crianças. Todas com a mesma postura. Na sala, somente se ouvia silêncio de medo. A contrastar com  a barafunda na rua, gritos, estrondear de tiros, roncar dos motores e buzinas dos carros. 
Dona Linda, apesar de conservar memória fresca, não se lembra quanto tempo esteve na sala, deitada no chão de terra batida. No sótão de recordações ficou apenas a figura da dona da casa, já de pé - depois de espreitar numa ranhura da janela de madeira maciça causada pela chuva - a falar “a confusão passou, lhes demos berrida”.   
Após o anúncio, as mulheres começaram a levantar-se, sacudir a roupa do corpo, vestidos uma, panos outras. Agradeceram à dona da casa “Deus é grande, comadre, que Nossa Senhora do Carmo lhe abençoe, vizinha” e foram  saindo. Não levavam nada, a não ser a sensação de estarem vivas. O resto - balaios, trouxas da roupa trazidas da Baixa para lavarem e engomarem no  musseque - ficou perdido na hora de começarem os tiros. As meninas e os meninos seguiram-nas. Também iam de mãos vazias, as sacolas da escola deixadas no areal da rua. As lágrimas de descompressão escorriam nos rostos de uns. Nos de outros tinham secado. Eram de raiva.
 A dona da casa tinha ido ao quintal, de muro de aduelas, fazer café na cafeteira de alumínio. Dona Linda sentiu aquele cheiro bom e, ao mesmo tempo, na mão, calejada da enxada de tratar da lavra perto do Cuito, a de Santa, pequenina, a apertar a dela. Foi nesse quase início de noite que as duas se olharam pela primeira vez.
A menina vinha do Huambo. A mãe tinha-a posto em cima da camioneta a abarrotar de outras crianças e de mulheres, mas não teve tempo de, também ela, subir. A viatura arrancara à pressa no meio dos tiros cada vez mais próximos. Foi assim que Santa, cinco anos, sozinha, chegou a Luanda. Desceu num areal descampado, como viu outras pessoas fazer. Sem conhecer ninguém foi andando até começar a confusão. A mesma que surpreendeu Dona Linda. O destino juntou-as na casa da “porta mágica”. Nunca mais se separaram. Até hoje.
A menina já é senhora. Enfermeira num hospital da cidade asfaltada. A mãe que lhe nasceu, bem como toda a família de sangue, morreu. Soube isso, quando Dona Linda a levou ao Huambo, já com a cidade libertada. 
O filho de Dona Linda, pouco depois de sair do hospital lutou de armas na mão contra as tentativas de ocupação e retalhamento do país. Posteriormente esteve em Cuba, onde tirou um curso técnico de agricultura. No regresso,  podia ter ingressado num organismo estatal. Não quis, voltou ao Cuito. É dono de uma pequena fazenda de milho, batata-doce, árvores de fruta e cria gado. A mãe, Santa e a filha desta vão lá de férias quase todos os anos.
Dona Linda, que não esconde as raízes bienas, sempre resistiu aos convites do filho de voltar ao Cuito, onde “não precisava de trabalhar”. Primeiro porque Santa estava a estudar, não podia ficar sozinha na cidade grande. Agora por causa da neta, que se prepara para entrar em medicina. O amor à “terra de semear” mantém-se. Onde agora moram as três, para lá de Viana, descobriu uma nesga de terreno baldio. Planta jinguba e batata-doce, que vende de vez em quando no Maculusso, mas “dá também para consumo familiar”, tal como o tomate, jindungo, até couve.
A Velha biena, que completou agora, 82 anos, apesar da vida sofrida que teve, garante que é “feliz, muito feliz com a graça de Deus”. E os olhos que me olham comprovam isso com o brilho transbordante de esperança.

SAPO Angola

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia