Opinião

Sadomasoquismo ou esquizofrenia? - Os (nossos) profetas da desgraça

Adebayo Vunge

Há já algum tempo que tenho andado afastado das páginas de opinião deste diário – a que alguns chamam ‘Pravda’ -, mas pouco importa por que razão, a verdade é que o Jornal de Angola é mesmo o nosso diário, e espero não arranjar makas com o meus “camaradas” José Kaliengue e Dani Costa de O País.

Numa altura em que sentimos que nos sobra tempo, ler e escrever são, sem dúvida, uma terapia importante. Estou então a aproveitar para concluir a leitura de alguns livros que fui deixando a meio e a encher-se de algum pó na cabeceira, sobretudo por causa das correrias que o dia a dia nos impõe ou de algum desinteresse que as suas estórias e outros conteúdos nos geram a dado momento. Estou agora a terminar uns e a iniciar outros.
E, entre as leituras, a escrita. Gostaria de encontrar inspiração para concluir dois livros que tenho em mãos. Um deles é de literatura infantil, do qual até os editores já se fartaram de me ouvir falar. Já lá vão cinco anos desde que o concluí com as ilustrações. Vivo aquela insegurança interior que me leva a não o entregar porque sinto que lhe falta (ainda) alguma coisa. E também quero aproveitar para revisitar o meu primeiro livro, ‘Dos Mass Media em Angola’, esgotado há mais de dez anos, mas muito solicitado entre estudantes de Comunicação e Jornalismo, e que me obriga a uma reedição revista e ampliada. Tenho já muitas notas e rabiscos e se houver tempo, tranquilidade e inspiração, pode ser que neste período consiga concluir este processo.
A verdade é que (para não repetir) não obstante o período em que vivemos ser para o chamado ‘isolamento social’ (ou ‘distanciamento social’ para não se confundir com isolamento a que estão obrigados os casos positivos do Covid-19), a verdade é que vivemos num estado de tensão permanente e de grandes incertezas sobre o futuro próximo. Pela minha parte, muito pelo que se passa no Mundo, mas, particularmente, com o impacto desta pandemia na economia nacional. Por estes dias, diga-se, a Mutamba está insone.
Sendo que a razão principal dessa minha crónica, hoje, é sobretudo a forma como vejo algumas pessoas reagirem ao Covid-19. Há um clima generalizado de insegurança e pânico, mas que tem sido contrariado pelos auxiliares do poder Executivo que apareceram a dar a cara nos últimos dias, falo nomeadamente da ministra da Saúde e da sua equipa, do ministro da Administração do Território e Reforma do Estado (MAT), da ministra das Finanças, ministro dos Transportes e do Governador do Banco Nacional de Angola (BNA), cada um na sua esfera, deixaram-nos, tanto quanto possível, mais confiantes. Sem dúvida, governar é comunicar.
Cidadãos como nós, Sílvia Lutucuta, Adão de Almeida, Vera Daves, Ricardo D’Abreu ou José Massano, mas com as responsabilidades governativas de hoje e cujas decisões têm, mais do que nunca, um impacto tremendo nas nossas vidas – saúde pública, segurança e Estado de Direito, finanças públicas, mobilidade e política monetária. Por isso, deito mão ao que Winston Churchill, o grande político e escritor britânico uma vez escreveu: “ouçam o que vos digo, jovens de todo o mundo, e gritem aos sete ventos. A terra pertence-vos, em toda a sua plenitude. Sejam gentis, mas destemidos, pois são hoje mais importantes do que nunca. Vistam o manto da mudança, pois chegou o vosso momento”.
É isso o que me dá alento e esperança no País e na humanidade, ao contrário de outras coisas que observo, notadamente nas redes sociais - e não quero agora discussões teórico-conceptuais para debater se o WhatsApp é ou não uma rede social - é uma vontade estranha em vermos a nossa própria casa pegar fogo. Noto de pessoas que estão cá, mas, sobretudo, de pessoas - e é de angolanos a quem me refiro - que vivem no exterior. E como bem retratou o Ismael Mateus, no Facebook, primeiro queriam obrigatoriamente que Angola tivesse casos de Covid-19, depois clamavam por vidas ceifadas e agora esperam maldosamente que a coisa se espalhe, e tudo isto antecipando números oficiais, quais adivinhos ou profetas da desgraça.
É assim também em muitas outras questões do nosso quotidiano. O que mais soa é o bota-baixo. Temos uma vontade mórbida, doentia e estranha em ver as coisas entre nós a correrem mal. É de uma insensibilidade estranha, confesso, vinda de gente que faz muito pouco pelo País. Aliás, muitos estão lá fora vivendo dos nossos já de per si parcos soldos. Tenho referido que somos dos poucos países que não recebem remessas da diáspora, porque a nossa diáspora ainda vive do que sai daqui e na hora da verdade, em momentos de fraternidade e solidariedade necessários, maldizem-nos e desejam-nos mal, de forma voluntária ou involuntária.
É sadomasoquismo ou esquizofrenia?! É “a estranha leveza do ser”, brincando e parafraseando o título do maravilhoso livro de Milan Kundera, um homem que nasceu checo e morreu francês.

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