Opinião

Salvar o mar e os rios pelo futuro de Angola

Luciano Rocha

O peixe transmissor de raiva, recentemente detectado em Luanda, trouxe à tona vários problemas causados pela ignorância da maioria da população do país, mas também por uma minoria norteada pelo lucro a qualquer custo.

O mar e os rios fazem parte das riquezas com que a natureza nos brindou e, por essa razão, devia merecer cuidados especiais que qualquer bem-querido requer sob o risco de o perdermos, se o tratarmos com desprezo.
O nosso mar e os nossos rios nunca mereceram a atenção que lhes é devida. É um mal antigo, vem do tempo da ocupação, mas tem vindo a agravar-se. Com a ampliação de erros, depressa assimilados, e uso de novos. Juntos crescem, devastadores, imparáveis, na senda criminosa que há-de matar  todos recursos hídricos que a natureza generosa nos ofertou. Uns já desapareceram mesmo, outros, moribundos, em vias disso, se não lhes for administrado tratamento adequado, que lhes devolva o oxigénio roubado nas descargas químicas, nos aterros para satisfazer “a febre do modernismo bacoco”, tão ao gosto de pequena burguesia emergente, igual em todo mundo, maravilhada com tudo o que vê “lá fora”. Sem atender às especificidades de cada país, cidade, vila, aldeia, povo.  
A sufocação dos mares e rios é feita igualmente pelos dejectos, devido à falta de saneamento básico, plástico  produzido entre nós e o importado, de tudo que é lixo doméstico, mas também de oficinas, lojas. Enfim, o nosso mar e os nossos rios são também lixeiras a céu aberto, que as devolvem às margens, com raiva justificada, de quem se sente infectado, agredido, bem  expressa, por exemplo, na violência das calembas.
O nosso mar e os nossos rios não nasceram conspurcados, nem os seres que o habitam e que eles nos ofereceram sempre sem pedir nada em troca. Foi o egoísmo de uma minoria, a ignorância da maioria, que nunca teve quem a esclarecesse, que os tornaram enfermos, moribundos, os assassinaram, como vão fazer com outras potenciais riquezas que não eternas. Quando todos, os que ainda cá andarem, perceberem isso, provavelmente será demasiado tarde.
O nosso mar, os nossos rios ainda podem ser salvos? Não tenho conhecimentos técnicos e científicos para responder, mas, a julgar pelo que leio e oiço contar de outros países, sim. Já há processos de descontaminar recursos hídricos, por via, entre outras técnicas, da sucção.
Um país que se orgulha - e bem - de ter, em breve, um satélite em órbita, da História escrita com coragem, tenacidade, inteligência, derrotou as então forças armadas mais poderosas de África, foi solidário com povos que ajudou a libertar das grilhetas do colonialismo e do apartheid, não pode continuar indiferente aos males que o afectam no dia-a-dia, muito menos incentivá-los. É preciso reagir. Todos irmanados, independentemente de opções políticas, credos professados ou sem eles, mulheres e homens, numa frente comum dos querem uma Angola melhor para os vindouros.
Escolas dos vários níveis de ensino, Igrejas, dêem o nome que dão a quem veneram e tentam seguir, associações de ambientalistas, sindicatos, organizações patronais têm obrigações particulares nesta matéria, tal como profissionais ligados aos recursos hídricos, ambiente, saúde. Antes de todos, Ministérios e organismos governamentais de vários sectores.
Ninguém pode ficar indiferente às agressões de que são vítimas o nosso mar, os nossos rios. A par de campanhas de   sensibilização e esclarecimento sobre a importância daquelas nossas potenciais riquezas são precisas acções que demonstrem a veracidade das palavras.
Quando todos entenderem a importância do mar, rios, até lagoas e cacimbas, somos um país melhor, mais saudável.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia