Opinião

Senhoras e senhores da oposição… e agora?

Rui Malaquias

Não obstante a dura realidade socioeconómica nacional, é possível notar que a margem de crítica e retórica anti-governamental, por parte dos partidos da oposição, tem vindo a baixar de qualidade e de tom, bem como a tornar-se numa música e letra que, de tão repetitiva e sem imaginação, acreditamos que o povo não estará interessado em ouvir.

Sim! O que temos ouvido dos nossos políticos, é o mesmo que recebemos e constatamos nas redes sociais com autores anónimos, e estes últimos muito mal informados sobre os factos. Há que convir que os argumentos que os nossos políticos da oposição têm trazido a público (alguns com verdade comprovada) não são novos, muitas vezes parecem vindos de um disco de vinil riscado.
Pois, se prestarmos atenção, a crítica da oposição nunca foi fundamentada em argumentos científicos, no que se prende a gestão económica e financeira do país; nunca nos deparamos com um modelo alternativo de governação económica; nunca fomos presenteados com soluções económicas e financeiras articuladas para retirar o país da crise ou pelo menos inverter o quadro actual.
O que temos visto a oposição a fazer é criticar ou atacar pessoas, ou atitude (ou a falta dela) do partido no poder. Por exemplo, nas eleições de 2017 o argumento era que o ex-Presidente da República iria se eternizar no poder. Este argumento caiu. No pós eleições, o discurso de retórica era que haveria a bicefalia entre o novo Presidente da República e o presidente do partido no poder. Este argumento também já caiu por terra.
Em seguida assistimos uma oposição à procura de argumentos de razão e foi centrar-se na luta contra a corrupção, dizendo que era só falácia e conversa de campanha eleitoral. Pois!, aí está a luta contra a corrupção que, apesar de não ter dois anos, já produziu efeitos em peixe miúdo e em peixe graúdo. Uma vez mais a nossa oposição ficou sem chão, pois mais um argumento caiu por terra e de forma inequívoca.
É importante aqui citar que esta não é a melhor, mais transparente e imaculada luta contra a corrupção que já vimos, e é bom que se diga que não temos exemplo (ainda que imperfeito) em África. Contudo podemos nos perguntar qual então é a luta perfeita? Onde podemos copiar e buscar exemplos acabados, limpos, perfeitos, imaculados de luta contra a corrupção? Era importante saber porque assim poderíamos replicar aqui no país.
A verdade é que não existe este modelo de luta contra a corrupção limpo, perfeito e imaculado em África ou no mundo, não existe e nunca há-de existir, porque são na verdade processos longos, duros e falíveis, a precisar de afinações, pois é um processo levado a cabo por pessoas para pessoas, então nunca haverá perfeição, pois a perfeição (ou falta dela) depende do ângulo em que se está posicionado.
A oposição e todas as redes sociais, bares, tabernas, reuniões familiares e os próprios visados pelo processo entrevistados no estrangeiro, falam de um combate à corrupção selectivo e até chamam uma caça às bruxas. Ora é importante aqui fazer um paralelismo. No fim do dia todos concordamos que existem bruxas, se calhar discordamos é com o modo que estão a ser caçadas.
A tal luta contra a corrupção que a oposição chama de selectiva e descontextualizada, está a ser levada à porta de casa de figuras icónicas no estado de coisas do passado, não se pode dizer que estão a prender o ladrão de galinhas, o que vemos é, na verdade, que estão a ser “apertadas” as galinhas de ouro, aqueles que já foram intocáveis, mas que hoje estão às portas da PGR.
Queríamos que fossem todos de uma vez? Sim, claro que sim, mas não é possível, pois é preciso reunir evidências e formar processos, pois muitos apropriaram-se do bem público de forma “legal”, então é preciso engenho para desamarrar estas amarras, e principalmente é preciso que haja apoio da sociedade civil, e da própria oposição que tem que deixar de ser míope e encarar esta luta como um objectivo nacional e não um mero artefacto político.
A oposição parece estar perdida, confusa e sem argumentos, e de tanto falar sem clareza e objectividade sobre qual a sua posição neste cenário, as suas afirmações chegam a roçar o ridículo, perecendo que está a defender alguns dos notáveis visados pela luta contra a corrupção. Certamente que o povo, e principalmente os que não votaram no partido no poder, não compreende o posicionamento da oposição, ficam perplexos, e devem perguntar-se, à boa maneira angolana, “mas então eles querem mais o quê?”
Esta hesitação da oposição em apoiar este esforço da luta contra a corrupção, este “não sei o que fazer agora” é ridículo e incompreensível, pois, esta tarefa, que é de todos e de cada um de nós, necessita de uma oposição que faça mais e melhor, pelo povo que lhes concedeu o mandato e principalmente pelo seu sentido de nação. A oposição deve apoiar este esforço, criticar sempre que necessário, mas deve estar do lado de quem está a governar, pois se não o fizer corre o risco de politicamente pagar a factura elevada, por deixar o partido no Governo liderar o combate sozinho.
Por outro lado, esta inércia da oposição deixa evidente que o partido no Governo parece ser o mais preocupado com a inversão do quadro, mostra que este partido (em termos políticos) está sozinho neste combate. Certamente que soa a um verdadeiro combate interno e à boa moda antiga, mas como se diz, existe sim a necessidade de separar o trigo do joio, e ver com quem se pode contar, pois o que parece é que existem algumas pessoas naquele partido que ainda só pensam em si ao invés de pensarem no povo.
Não é preciso ser vidente para ver que esta luta contra a corrupção vai causar cisões dentro do partido no poder, pois alguns preferem não entender o sinal dos tempos, e claramente é visível que o partido no poder está disposto a sacrificar alguns dos seus para atingir o bem comum, o que revela que o partido no poder aparenta ter a capacidade de se regenerar e preparar-se para uma governação completamente diferente da que temos assistido até hoje.
Contudo espera-se que a oposição também faça sacrifícios internos. Nada mais normal do que a oposição despir-se da sua armadura e admitir que sim, o Governo está no caminho certo, e aplaudir e encorajar este esforço. Acreditamos que isso seja o mínimo que o povo deve esperar daqueles políticos. Naturalmente que esta atitude trará “faíscas e fagulhas” internas, pois nem todos têm o mesmo sentido de Estado.
Por outro lado, esperamos que a oposição mude de postura e traga soluções para a questão económica nacional. Temos visto os estudiosos e a sociedade civil muito mais interventivos do que os partidos da oposição. O país precisa de uma oposição forte e que domine os dossiers económico e financeiro, que diga claramente que variáveis económicas alteraria, quais as razões e os efeitos destas alterações e como afectaria a vida das famílias e das empresas.
É extremamente importante perceber, nesta fase da nossa conjuntura económica e social, que alternativas a oposição terá, principalmente em termos de governação económica e financeira, o que faria de diferente relativamente ao que está a ser feito agora pelo partido no Governo, ou pelo menos o que se pode esperar destes partidos em termos programáticos nas áreas de finanças públicas, soluções para o sistema financeiro, atracção de investimento estrangeiro e alavancagem do sector empresarial privado.

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