Opinião

Será apenas mais um ano lectivo?

Carlos Calongo

Oficialmente aberto no dia 31 de Janeiro, o ano lectivo 2019 conhece, nesta semana, a efectividade das aulas, repetindo-se um velho e péssimo hábito de se perder uma semana lectiva por razões que já não têm razão, caso houvesse vontade de quem de direito, estancar tão nociva prática, enquadrada no espírito de que “na primeira semana não há aulas”.

A beleza dos discursos oficiais pronunciados em véspera da abertura do ano lectivo se expressa valorativamente no quantitativo de dez milhões, seiscentos e oito mil e quatrocentos e quinze alunos no sistema de ensino geral, representando uma variação de seis por cento em relação ao ano académico de 2018.
Sem que fosse explicado o sentido da variação percentual, aceita-se o discurso por via do “politicamente correcto e conveniente”, sem que isso anula a interpretação de que, a aludida variação se estabelece na escala negativa, a considerar o binómio oferta/procura, que por altura das inscrições deu muito que falar, resultando disso, o elevado número de alunos que ficarão sem estudar no presente ano lectivo, principalmente nas classes de entrada, a saber iniciação, 7ª e 10º classes.
Na prática, teremos apenas mais um ano lectivo, com alguns dos mesmos problemas de sempre, para os quais ainda não foi dispensada a atenção política que se recomenda à dimensão real da problemática, parecendo que cá entre nós teimamos não perceber o real valor que o sector da educação representa para qualquer sociedade humana.
E todo o agente activo do sistema de ensino, e não só, sabe que para lá do défice de salas de aula, o problema agudizou-se, em parte, com a introdução da 13ª classe no curso médio técnico, o que em bom rigor impede a liberalização das salas de aula para os alunos das classes de início de ciclo, atrás já referidas.
Como uma das consequências, formam-se turmas com cinquenta, sessenta, oitenta e tais alunos, em atropelo ao regulamento do sistema da reforma educativa em vigor no país que, verdade seja dita, já está em tempo de ser reformada, a julgar pelos resultados por ela (não) produzidos, os quais depravaram ainda mais o nosso sistema de ensino, de si já débil e com pouco valor em termos de resultados globais, claro, com as recomendadas excepções à regra.
Contudo, se nos obrigamos a entender como excepcionais e conjunturais as razões do estado da educação no país, em obediência à vontade ou esforço (?) político dos governantes, também deve ser feito exercício similar em relação ao entendimento no trato aos principais operadores do processo, -nos referimos aos professores -, não poucas vezes tratados pelos directores como se fossem “coitados”.
Neste quesito, e a guisa de exemplo, está de volta a velha questão dos 24 tempos lectivos que cada professor deve ter como carga horária semanal, assunto com que os inspectores querem voltar a fazer valer a “arrogância” com que muitas vezes actuam no exercício das funções, ao ponto de fingirem não compreender a impossibilidade e/ou inviabilidade do cumprimento dos tais 24 tempos, em certos casos.
Ao que se ouve, alguns inspectores, ainda revestidos da pele do falecido “senhor ordens superiores”, denotando pouca capacidade argumentativa, vão alegando que “ordens são ordens e para serem cumpridas…”, não os importando o contexto e a prudência que cada caso suscita na análise particular.
Para tais inspectores, provavelmente há muito desconectados da realidade e talvez não conseguindo mais fazer a gestão de uma sala de aulas, nada lhes diz, por exemplo, uma turma com 50 alunos, cada um com o seu carácter, numa sala de aulas que não conhece arejamento nenhum, em que os professores e alunos não sabem se escrevem ou se abanam para afugentar o calor.
E dessa forma, a pergunta que persiste é esta: onde fica a qualidade pretendida, cujo estado de orfandade coabita com o ensino em Angola, entra ano sai ano? Deste entendimento, seguramente, teremos apenas mais um ano lectivo, sofrível, em que a qualidade ficará para lá do desejo, mais uma vez, mutilada.
E do Sinprof? Apenas silêncio, e nada plausível em relação à “luta” para que seja reconhecido o papel do professor e a sua importância no contexto social, que se não é superior à nenhum outro profissional, pelo menos não perde para ninguém, e mais que tudo, ele deve ser respeitado e valorizado.

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