Opinião

Serão estes os chamados “negócios da China”?

Rosalina Mateta

Desde 2003, altura em que Angola começou por firmar acordos com a China, no âmbito da reconstrução nacional, os luandenses vêm testemunhando ou ouvindo histórias, cujos protagonistas são cidadãos daquele país asiático.  A criatividade dos angolanos permitiu que se fizesse piada com  “dois Cuca”, dada a dificuldade dos nossos “ajudadores” pronunciarem o número 1, sendo, por isso, forçados a pedir duas cervejas Cuca, mesmo quando quisessem beber apenas uma.

Guardamos a triste memória das vidas que foram ceifadas por camiões “made in China”,  conduzidos por homens da mesma proveniência, que, por  visível imperícia, fartaram-se de matar angolanos nas estradas deste país. Vimos chineses a fazer bicos em obras de construção civil de particulares, prática tão corriqueira que Matias Damásio fez questão de enfatizar, na sua composição “Kwanza Burro”. Há chineses a zungar, a vender em mercados e a fazer muito mais.
Mas também testemunhámos e registamos com agrado os inúmeros benefícios trazidos por este povo, que conserva conhecimentos milenares. As centralidades habitacionais certamente foram o ganho desta cooperação que mais salta à vista e se reflecte na melhoria da qualidade de vida de muitos de nós. Por isso e outros bons feitos, uma salva de palmas à cooperação com a China!
Porém, não nos esqueçamos que a cognominada ajuda tem um preço muito alto. Em Janeiro deste ano, foi noticiado que Angola, de modo global, já devia à China 60 mil milhões de dólares. Estamos e vamos continuar a pagar esta dívida que, por certo, vai aumentar. Também estamos cientes de que já onerámos as gerações vindouras. Portanto, devemos deduzir que haverá balizas bem definidas nos acordos firmados entre as partes e que tudo foi selado com muita lisura.
Por esta razão, quero acreditar que terão ficado claros os limites de actuação dos cooperantes chineses. Então, poderá um cidadão chinês desmatar as nossas florestas e vir exibir em camião os toros de madeira como troféus? Também pode um chinês, ainda que tendo imunidades oficiais ou oficiosas, pretender embarcar para o seu país com mais de 300 quilos de marfim, camuflados em12 malas? É permitido a uma empresa chinesa, que veio ao abrigo da cooperação existente, construir, no condomínio Vida pacífica, uma grande escola e duas creches e mantê-las fechadas por cinco anos, sob pretexto de estar à procura de comprador, quando centenas de crianças em Luanda não estudam por falta de escolas? Como entender estes factos e explicá-los aos nossos filhos? Será que estes é que são os tão famosos negócios da China, que desde crianças ouvimos falar?
Não sei como se vão quebrar estes laços iníquos. O meu alívio, enquanto jornalista, é que todos estes factos foram denunciados pela imprensa angolana e as provas postas à vista de todos e as apreensões confirmadas pela Polícia Nacional. Esperamos pelos próximos capítulos.

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