Opinião

S.Exa., a arrogância

Arlindo dos Santos

Caros leitores, permitam-me que continue a sonhar! Lanço este grito, feito em jeito de súplica, porque apesar de todos os pesares, apesar das baterias de insatisfeitos e impacientes concidadãos que barafustam agora e nunca abriram a boca antes, eu sou dos que ainda pensam – ou sonham – que o processo de transição para um regime democrático que se desenvolve desde que João Lourenço assumiu a presidência de Angola, é irreversível.

 Não obstante a carga negativa dos acontecimentos que nos surpreendem diariamente; mesmo que o ritmo com que caminha o dito cujo processo, seja demasiado lento, e ainda que os cenários e as perspectivas analíticas sejam desanimadoras. Vou sonhando, porque, tal como barafusta quem quer (um direito que a era de Jlo deu força), também sonha quem quer, e mais, quem acredita no sonho, mesmo que o dito cujo se transforme por vezes em pesadelo, e atinja hoje o ponto crítico e preocupante que estamos com ele. Ele está, apesar desse cenário conturbado, condenado a seguir a sua rota. E essa, está destinada a ser, necessariamente, vitoriosa. Penso deste modo porque sou um tipo de fé (há alguém que muito estimo e me é bastante próximo, que detesta ouvir-me a utilizar este termo), e porque há processos que, por muito que encalhem, estão proibidos de fazer recuos. Contrariando certas concepções, as variáveis macro-estruturais então predominantes em Angola, mesmo que discretamente, estão a ser alteradas, e o que hoje existe delas, são fortemente contestadas por outras perspectivas que privilegiam um maior equilíbrio dos números e, por inerência, o derrube de qualquer sonho de regime autoritário em Angola. Por muito que queiram os descrentes e os multifacetados inimigos desta martirizada terra, estes, perfeitamente identificados pelo povo. Entretanto, factores eminentemente políticos e institucionais que os muitos estudos das transições de regimes autoritários nos mostram a cada passo, continuam, infelizmente, a permitir que permaneçam em cena nos nossos tablados públicos, actores que, nas suas representações, têm tanto de medíocres como de descarados. São personagens que vão exibindo os seus dotes de comediantes de circo (na linha dos palhaços ricos que ridicularizam e enganam sempre o palhaço pobre), apoiando as suas actuações em argumentos de farsa e pura ficção. Conscientemente e com arrogância, não escondem o intuito de manterem longa, pesada e lenta, a marcha do gradualismo da transição angolana.
Na tentativa de caracterizar essas ridículas figuras do panorama político nacional, tive alguma dificuldade para conseguir encontrar palavras capazes de dar uma melhor expressividade ao que sugere a epígrafe desta crónica. É evidente que verifiquei que o tratamento cerimonioso não deve, em situação alguma, ser dado a um sentimento tão mesquinho como é a arrogância. Aproveitei-me então da metáfora, uma figura de linguagem que, como todos sabemos, transporta a palavra ou a expressão do seu sentido literal para o sentido figurado, para fazer valer o que se pretende comunicar. Neste caso específico, trata-se de uma comparação que é expressa sem os termos que habitualmente caracterizam uma real comparação. Assim, e na senda do que dizia acima, a arrogância é, entre muitas outras coisas negativas, o sentimento que caracteriza a falta de humildade. É comum conotar a pessoa que utiliza este sentimento como arma, primeiramente, como alguém que não é educado, geralmente incompetente, depois, como pessoa que não gosta de ouvir os outros, que não quer aprender algo que não saiba ou que pretende sentir-se ao mesmo nível ou ao nível superior do seu próximo. É um sentimento que é sinónimo de vaidade extrema e, acima de tudo, de clara imbecilidade. Entre nós, e para mal dos nossos pecados, Sua Excelência, a arrogância, anda à solta pelos inúmeros departamentos e repartições existentes no país, prejudicando barbaramente e das mais diversas formas, o crescimento, a credibilidade e o prestígio de Angola. Fazem entrada nos mais humildes como nos mais luxuosos gabinetes. Quer sejam ministeriais, provinciais, de serviços públicos de vários níveis. Passeia-se livremente, com um à vontade e impunidade assustadoras. Tomou conta da cabeça de muita gente sem nível, que se julga com poder mas que não pensa, e que ainda não perdeu o receio de atirar para o ar, sem mescla de vergonha aparente, a proverbial pergunta, “você sabe quem sou eu?”, ou “sabe com quem estás a falar?”, expressões que preenchem as páginas mais burlescas do anedotário nacional. Infelizmente, elas são utilizadas frequentemente, desde os primórdios da independência, pelo mais vulgar chefito, fardado ou à paisana, inchado de acordo com o traje, com os galões ou até com a gravata, o relógio e o fio de ouro, grosso quanto baste, para demonstrar ao seu semelhante que ele, o arrogante, tem poder, é superior ao outro e, por tal razão, está autorizado a dar bafos a todo o mundo. Pobreza franciscana!
Presenciei, ao longo dos anos, a muitas situações de arrogância, nos partidos políticos, nos serviços, nos bancos, nos ministérios, no futebol e no desporto em geral, na Polícia, nas escolas, nos hospitais, na imprensa, particularmente na actuação de certos jornalistas, alguns deles transformados hoje em pivots de matriz popularucha (lembro-me de todos eles, porque a velhice também aviva a memória, principalmente na sua parte mais magoada), enfim, na vida do dia-a-dia. Parece um mal que se apoderou dos nossos sentidos, mais correctamente, dos sentidos de gente perdida no seu triste sonho. Habituei-me a ver, em Lisboa e noutros sítios, indivíduos angolanos, em shows de perfeita grosseria, a evidenciar burrice e arrogância. Um moçambicano disse um dia na minha cara, que não gostava de angolanos por causa da sua vaidade e arrogância. Também já vi, nesta época de mudança, alguma gente que era arrogante, a alterar o comportamento, a mostrar-se humilde, por vezes humilde demais, duma forma que até me deixa constrangido, literalmente sem jeito. Mas, ainda bem que tal vai acontecendo, porque para certos males, nada melhor que o arrependimento. Resumindo e concluindo: se as pessoas pensassem nas consequências da sobranceria e do comportamento arrogante, veriam com outros olhos o modo como a maldita tem sido destruidora de muitos projectos, de sonhos, de expectativas e relacionamentos, quer a nível de famílias como de instituições. Arrepender-se-iam, provavelmente, por algum dia a terem utilizado tão inutilmente. De qualquer modo, as minhas ocultas sensações avisam-me que devo continuar a alimentar o meu sonho.
Tenho para mim que não tardará o dia em que os detentores do poder tomem medidas tendentes a libertar-nos gradualmente da arrogância que vive ainda o tempo áureo do regime autoritário, para se institucionalizar entre nós, de facto, uma verdadeira democracia, uma sociedade respeitável.

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