Opinião

Silenciar as armas em África

Filomeno Manaças

A Cimeira da União Africana que acontece sábado e domingo, em Addis Abeba, Etiópia, deve assumir como compromisso o “silenciar das armas” no continente ainda este ano, objectivo para o qual peritos de vários países membros trabalham arduamente num roteiro que vai servir de base para a aplicação de medidas concretas.

A existência de um ambiente de paz é o pressuposto fundamental para que haja desenvolvimento em todas as áreas e de forma harmoniosa, razão por que os Chefes de Estado e de Governo incumbiram aos seus representantes nas reuniões preparatórias, que decorrem na capital etíope, emprestar o seu contributo técnico, nas mais distintas vertentes, para que se consiga um Tratado o mais elaborado possível e que contemple a complexidade e multiplicidade de assuntos e problemas a serem abordados e resolvidos.
O debate sobre a necessidade de “silenciar as armas”, para criar as condições para o desenvolvimento do continente, significa, só por si, um grande avanço/evolução em termos de estratégia de pensamento ao nível de cada um dos países e da União Africana, e que marca uma viragem, um contraste com o passado de cimeiras em que os Estados membros nem sempre estiveram alinhados em relação a questões fundamentais.
Uma série de factores contribuiu para que as coisas se passassem desse modo, muito por culpa das influências externas, de conjunturas históricas que determinaram comportamentos políticos, enfim, até mesmo o despreparo de certos estadistas que mancharam negativamente a imagem dos seus países e a do continente (quem não se lembra de Idi Amin Dada?).
O sonho era de que, alcançada a independência, os países africanos teriam as portas abertas para o progresso económico e social. Não foi assim com todos. A Etiópia, que é dos Estados mais antigos de África e do mundo, e a Libéria, que completa a 26 de Julho 173 anos de independência, são dois exemplos de países que enfrentam vicissitudes resultantes, em parte, da falta ou deficiente aplicação de políticas governativas a vários níveis. A gestão de conflitos internos e da realidade étnica circundante foi sempre um grande desafio para a Etiópia, cujo actual Primeiro-Ministro, Abiy Ahmed, está a procurar superar com reformas ousadas. A Libéria pouco se desenvolveu desde a independência. Para agravar a situação, a guerra civil que varreu o país, entre 1989 e 1996, contribuiu para um acentuado retrocesso económico e social dos liberianos.
A maior parte dos países africanos conquistou a sua independência nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado e registou, salvo um ou outro, conflitos políticos ou político-militares, de cariz interno ou fomentados de fora, que repercutiram negativamente no seu desenvolvimento. Países que ganharam a sua independência da potência colonial por via da luta armada de libertação nacional, como Angola e Moçambique, conheceram, durante largos anos, uma guerra civil atroz que exauriu imensos recursos humanos e financeiros e não deixou espaço para se pensar e implementar uma estratégia de desenvolvimento mais consentânea com aquilo que eram (e continuam a ser) as aspirações dos seus povos. E, como se não bastasse, finda a guerra a corrupção tomou conta de todo o sistema de governação.
A África do Sul, por seu turno, beneficiou das condições excepcionais de apoio que o Ocidente (e não só) concedeu ao regime de apartheid, o que permitiu ao país alcançar um nível de industrialização incomparável no continente e que não encontra paralelo mesmo em alguns países europeus.
No global, o relativo progresso económico e social atingido pelo continente, em um século, não faz jus às suas potencialidades, aos vários recursos de que dispõe. Má gestão governativa, corrupção, intrigas políticas (internas e externas), políticas de Estado incipientes ou pouco coerentes na sua aplicação, além da falta de democracia ou, nos casos em que ela tenha sido adoptada, se mostre não estar amadurecida, acabaram por condicionar o alcance de muitos dos objectivos sociais e económicos.
O despertar para a necessidade de “silenciar as armas” acontece num momento em que vários líderes africanos estão seriamente comprometidos em implementar reformas profundas nas suas sociedades, momento este também marcado pelo renovado interesse do mundo e, em particular, do Ocidente, em relação ao destino de África.
Prova evidente é o facto de, no calor do Brexit (saída da União Europeia), Londres ter realizado uma Cimeira Reino Unido-África, destinada a traçar novos rumos para a cooperação com o continente, livre das regras ditadas pela Europa, agora dos 27. Outra prova está nas declarações recentes de Enzo Amendola, ministro italiano dos Assuntos Europeus, que, em entrevista ao Diário de Notícias de Portugal, considerou que “a irmã para o desenvolvimento europeu neste século será a África”. E não o disse por acaso. Amendola é de opinião que o alheamento da Europa em relação aos problemas de África está a deixar a porta aberta para a entrada de outros actores políticos. O conflito na Líbia e a vaga de migrantes que demandam os países europeus, em particular a Itália e a Espanha, são, apenas, dois aspectos que suscitaram a necessidade de uma actuação coesa da Europa e a realização, na Alemanha, da Conferência de Berlim para tratar da situação no território líbio.
Sabe-se não ser tarefa fácil “silenciar as armas” em África em 2020, tendo em conta os interesses dos lobbies do negócio da venda de armamento e as “novas ideologias” que se querem instalar fazendo recurso à violência armada e ao terrorismo. Mas este primeiro passo é firme, decisivo para mudar muita coisa.

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