"Sir" Oswald Mosley e a rica União Britânica de Fascistas

Luis Alberto Ferreira
21 de Abril, 2017

Paul Krugman, prémio Nobel de Economia (2008), publicou em Novembro de 2015 no “The New York Times” um texto significativo, “O despertar da farsa”. Significativo pelos traços orientadores que o depoimento faculta agora, decorridos menos de dois anos. “O despertar da farsa”põe a nu a verdadeira natureza dos republicanos. Algumas das virtuais certezas de Krugman sugeriam, em 2015, premonições logo confirmadas pouco antes e depois da eleição de Donald Trump.

“O despertar da farsa” tem outra virtude central: dar-nos a conhecer o que muitos órgãos de informação omitem ou secundarizam. De entre os temores e preconceitos do campo “conservador” emergem “valiosas”lições. O medo pânico do direitista Chris Christie, que considera importante proibir a entrada nos Estados Unidos de crianças muçulmanas. A paranóia historicista de Niall Ferguson, “um dos favoritos da direita”, convencido de que os atentados de Paris “foram exactamente como o saqueio de Roma pelos godos”. Ou a discursata integrista de Jeb Bush– irmão de George W. Bush –defensor obstinado de “medidas drásticas contra o acolhimento de refugiados a menos que estes possam demonstrar que são cristãos”.
Juízo conclusivo de Krugmanantes da consagração de Trump: “O pânico é a essência da direita norte-americana. Isso definirá o candidato republicano para 2016”. O que antes pareceu ser probabilidade acabou por transformar-se em realidade inequívoca.
Na mesma linha das probabilidades situa-se um vaticínio do economista helénico Yanis Varoufakis. No  dia 2 de Agosto de 2015, o ex-ministro das Finanças do governo de Tsipras advertia: “A Espanha corre ainda o risco de acabar igual à Grécia”. A soberba ideológica faz com que “avisos” desta índole sejam repelidos e criticados pelos países destinatários, férteis em cultivos desviantes e omissivos. De novo, menos de dois anos decorridos – sobre a advertência de Varoufakis – a Espanha carrega uma dívida tão próxima de ser impagável quanto a de Portugal ou a da mesmíssima Grécia. Estudos recentes garantem que em matéria de pobreza a Espanha será hoje na Europa a terceira força, com ligeira “vantagem” apenas sobre a Roménia e a Grécia.
Os chamados analistas, ou politólogos, de Madrid a Nova Iorque, de Lisboa a Palermo ou Milão, de Paris a Londres, de Bruxelas a Amesterdão, tudo fazem para semear o medo e o desnorte entre os europeus que se negam a engrossar as fileiras da estultícia e do esquecimento. O medo à incorporação do passado no processo de avaliação das actuais circunstâncias dos “Aliados” resiste a todos os apelos da razão e da coragem intelectual. Há cerca de um mês, Javier Marías, destacado vulto da intelectualidade espanhola, escrevia: “Em Espanha continua a haver um grande número de admiradores de Franco. E, pior, muitos deles estão incrustados em alguns dos partidos políticos” – alusão claríssima de Maríasaos dois partidos, o Popular e o Socialista, que desde a morte do “caudillo” Franco monopolizam as ferramentas do poder político-governamental ...à custa do voto saudosista.
Sobre o passado e a importância da sua avaliação sistemática emite, por sua vez, Javier Cercas, também influente politólogo espanhol, o seguinte juízo: “Por desgraça, a direita espanhola, ou boa parte da direita espanhola, continua sem ter claro o passado. Carecemos, portanto – os espanhóis – de um acordo completo sobre o presente. O que significa que o passado continua sem ser digerido, continua como lastre e obstáculo, por vezes até como arma de arremesso. E por isso não sabemos nunca para onde vamos ou o que fazer com o futuro”. Não em vão outro importante analista, o galego Manuel Rivas, advertia em Novembro de 2015: “O enfado, o ódio, a criação do inimigo, são processos perturbadores quando neles intervém a maquinaria do poder”.
O “Brexit” propicia muita intervenção escrita ou falada – mas nunca no sentido sequer de avulsas digressões indagatórias das origens político-ideológicas de quem forma hoje, no Reino Unido, a vertente conservadora. Todos nós conhecemos as proclamações marciais do colonialismo britânico. Isto é, temos perfeita noção de como o colonialismo é um dos braços armados do fascismo. “Winston Churchill descobriu a tempo que havia fascistas no Reino” – título de crónica recente por mim publicada nestas colunas. Mero exercício de suspense, em antecipação a novas abordagens. Na realidade, Churchill, que antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial concebiaum plano diabólico,integrava ele próprio a corrente fascista mal dissimulada por ocasião do espantoso Acordo de Munique, simpático, cúmplice e transigente com Adolfo Hitler. No Reino Unido, a ideologia de “sir” Oswald Mosley – confusa na sua promíscua concepção de fascismo, nacional-socialismo, anti-comunismo e proteccionismo – surgiu em 1932. Ano em que “sir” Oswald Mosley foi presidente da União Britânica de Fascistas (“British Unionof Fascists”), força político-partidária musculada pelos homens mais ricos do Reino. O número dois da União Britânica de Fascistas era o radical Geo Pitt-Rivers, primo de Winston Churchill.
Se o Acordo de Muniqueaconteceu em 1938, a oferta de Bruxelas a Londres para travar o “Brexit” é obra de Fevereiro de 2016: culpar os imigrantes. Um ano decorrido, Fevereiro de 2017, o fascista holandês Geert Wilders, do Partido para a Liberdade (PVV), classificava de “chusma” os imigrantes oriundos do Magreb.
O iate de luxo do ideário de “sir”Oswald Mosley continua, pois, a singrar – com ventos de polifónicas origens e bandeiras neoliberais.
Da “confusão” entretanto estabelecida podem extrair-se muitas outras leituras. Destaquemos esta ocorrência: dos bastidores das eleições de 15 de Março último na Holanda surgiu a revelação de que o candidato da extrema-direita havia recebido uma ajuda de 150.000 dólares do também ultra norte-americano David Horowitz. “Ele é um herói da liberdade de expressão”, disse de Geert Wilderso mesmíssimo Horowitz. Coerência! Fascismo igual a “liberdade de expressão”...

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