Opinião

Só porque o morto não fala…

Carlos Calongo

A morte de um ser humano ainda é, até prova contrária, o mais complexo dos fenómenos naturais, nem que seja pela secular razão de falta de explicação científica de que a consciência continue após a morte, bem como as discussões sobre as várias crenças e tantos outros valores que acreditam na existência de vida após a morte física.

As abordagens em volta de crenças na ressurreição, reencarnação, etc, devem ser respeitadas à luz dos parâmetros das religiões, doutrinas espirituais, bem como outros conceitos atrelados na esperança que cada um deposita no que considera ser o apêndice seguro da sua formatação enquanto homem.
Mais do que todas as teorias que podem ser avançadas sobre a morte, a verdade é que ela é uma realidade que todos devemos aceitar, claro, sem clausurar a expressão de manifestações julgadas condizentes com cada circunstância específica.
E é sobre algumas dessas formas de manifestações que nos propusemos reflectir hoje, dada a preocupação que provoca na nossa mente, obrigada a trazer à esfera pública os nossos argumentos de razão, com o sentido privilegiado de ser um mero exercício de partilha de opinião.
Fica salvaguardada, desde já, a questão de não sermos, seguramente, os únicos a dedicarem-se à observação de que, perante a morte de alguém, emerge um conjunto de pessoas e vozes que, com admirável incontinência verbal, decidem (des) tratar os falecidos, feitos advogados que se auto-constituem para o efeito.
Por via de regra, os que assim agem, socorrem-se da capacidade amplificadora das redes sociais, assumindo posições vantajosas, permitidas pelo silêncio da morte, que em nada e para nada pode defender-se, rectificar ou, se tanto, ratificar os discursos (escritos ou verbais), com os quais se agraciam os finados, ou seja, só porque o morto não fala…
A prática em referência, - recorrente nos últimos tempos-, tem características próprias sendo, na maioria dos casos, a diminuição dos louros que as circunstâncias convencionaram atribuir a quem se tenha destacado por alguma razão, a exemplo de Agostinho Neto, cuja memória, por mais que alguém pretenda ridicularizar, nos remete para a figura do Herói Nacional e Fundador da Nação Angolana.
Cada um com as suas razões, muitas delas dúbias, quando não são meros actos de busca de protagonismo e relevância mediática, parece que as pessoas adquiriram autorizações expressas para advogarem,-a favor ou contra-, de um falecido, sobretudo quando se trata de uma figura pública, seja da arena nacional ou internacional.
Voltando ao exemplo de Agostinho Neto, existem os quem têm o descaramento de, na ânsia de passarem a mensagem de terem sido próximos, quiçá, “amigos de pai e mãe de Manguxi”-passe a expressão-, contam episódios que em nada se encaixam no tempo e espaço, e mais parecem embustes.
Comportamentos do género, no fundo, deixam a ideia de que, para os verdadeiros conhecedores da história, muito do que se diz em situações diversas, não passa de mero estardalhaço com fins inconfessos.
Em sentido contrário, não faltam os que se apresentam com força, vontade, querer e mais qualquer coisa que sobra, para encontrar e apregoar histórias em que personagens com relevância social e histórica a exemplo do já citado Agostinho Neto, Nelson Mandela, Lénine, etc, são diabolizados da forma mais leviana e irresponsável possível.
Outra observação desta nova tendência no trato aos mortos, talvez, só porque não falam, tem que ver com os textos em que os finados são referenciados como tendo morrido “zangados, magoados, tristes, etc”, com este, aquele, aqueloutro compatriota /instituição ou, no caso dos artistas, por não terem sido objecto de qualquer homenagem, como se isso fizesse ganhar mais anos de vida, para não falarmos, a vida no sentido perene.
Para este último grupo, os exemplos mais recentes vêm das mortes do jornalista Edgar Cunha e os músicos Waldemar Bastos e Carlos Burity, apresentados como vítimas de tudo e mais o resto, sendo coincidência ou não, a tentação de se apontarem os mesmos culpados para tudo e todos.
Esta tendência, claro está, mais do que a demonstração do reforço da cultura de animosidade que muitos angolanos adoptam em relação a quem não comunga os seus ideais político-partidários, prova que existe um aproveitamento da condição dos mortos, só porque eles não falam, e vão daí serem aceites e reproduzidas todas as (in) verdades sobre eles.
Sendo apenas a nossa simples observação, o que se diz sobre os mortos, independentemente de constituírem verdades ou mentiras, a questão que deixamos como trabalho para casa (tpc) é esta: Se os finados, enquanto em vida, não falavam de certos episódios, que autoridade têm os “biógrafos de ocasião” para tais referências?

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