Opinião

Sobre o 11 de Setembro de 2001

Sousa Jamba

No dia 11 de Setembro de 2001 estava numa conferência sobre a Geopolítica em Londres. Estava precisamente a caminho de um almoço com um perito sobre o Médio Oriente que, infelizmente, já é falecido. Antes, na conferência, estávamos a falar do Sudão - de como este país estava geograficamente no continente africano, mas politicamente no Médio Oriente. Quando vimos as pessoas a saltarem das torres, o amigo disse que estávamos a viver um momento que iria definir o futuro da humanidade; o mundo não seria igual a partir daquele momento. Para mim, aquilo foi um grande choque. Ver aquelas pessoas a saltarem das torres em desespero foi horrível.

Dezoito anos depois, está mais do que claro que o mundo mudou. Nos dias a seguir ao ataque em Nova Iorque e Washington DC, eu quase não dormia para seguir as entrevistas, debates, etc, na televisão e rádio, que tentavam entender bem o que estava por trás do acontecimento. Na altura, passei a entender um pouco melhor o que estava por detrás do extremismo Islâmico. A resistência afegã contra a então União Soviética fazia parte da esfera ideológica a que pertencíamos. Estive presente quando, em 1985 na Jamba, território controlado pela UNITA, houve uma conferência internacional de todos os movimentos anticomunistas. De-pois da conferência, o Doutor Jonas Savimbi disse-nos para não levar-mos a sério os delegados destes movimentos, porque na sua maioria eram grandes reaccionários. O Afeganistão, depois do fim da Guerra Fria, tornou-se numa retaguarda de uma outra guerra que nós não entendíamos.
Os jornais britânicos publicaram na altura vários ensaios sobre Sayyid Qutb, aparentemente o mentor intelectual dos muçulmanos extremistas. Os argumentos de Qutb, concluí eu, coincidiam, em certas partes, com os de Edward Said, o grande intelectual palestiniano. Na faculdade, tive que ler a obra de Said “Orientalismo”, que argumenta que várias narrativas ocidentais sobre o mundo árabe serviam apenas para justificar a supremacia da cultura ocidental. Edward Said tratava da questão da representação; em muitas obras que os europeus tinham escrito sobre o Oriente, ele argumentava, os nativos ou indígenas não tinham voz. Para mim, a validez dos argumentos de Said estava bem patente. Na altura, eu tinha muito interesse na dita literatura das colónias - nas narrativas em que os portugueses falavam de África e os africanos não tinham voz. Foi este fenómeno, soube eu, que influenciou o grande escritor nigeriano Chinua Achebe; ele sentia que escritores que tinham escrito romances notáveis sobre a África — Joseph Conrad, Joyce Carey e outros — não reflectiam a realidade africana. Eu sentia que o desassossego no Médio Oriente, que justificava uma certa hostilidade ao Ocidente, poderia ser entendido. Mas eu também acreditava que havia muito no Ocidente que era de admirar - a cultura da troca e contestação de ideias, por exemplo.
Em Londres, naquela altura, muitos extremistas muçulmanos começaram a manifestar-se. Houve, até, alguns que insistiam que os ataques em Nova Iorque e Washington DC, em que quase três mil pessoas perderam a vida, era justificável. Estes não paravam de menosprezar a cultura ocidental e insistir que o futuro deveria ser uma sociedade baseada na Lei Islâmica, a Sharia. Eu não entendia os jovens somalis, que tinham fugido da sua terra e encontrado um refúgio no Reino Unido, mas conspiravam para meter explosivos em locais públicos para matar civis inocentes.
A grande atracção de Londres era o seu cosmopolitismo. Em Setembro de 2001, eu vivia em Dalston, no leste de Londres. No fim da minha rua havia uma sinagoga; eu apreciava ver os judeus a irem para as suas orações nas sextas-feiras. Para mim, aquilo era um triunfo sobre a intolerância de Hitler, que tinha contemplado o seu extermínio. Não longe havia uma Igreja Pentecostal, em que se acreditava que Deus era um nigeriano chamado Olumba Olumba Obu. Havia, também, a área dos turcos, onde eu ia apreciar as várias comidas daquele país.
Quando as autoridades britânicas se mexiam, e havia propostas de que aqueles que tinham adquirido a cidadania britânica e envolviam-se eventualmente em actos terroristas deviam perder a nacionalidade, aparecia logo um alarido. Foi nesta altura também que surgiu um debate bastante que a luta contra o terrorismo não deveria justificar o atropelo acalorado sobre os valores fundamentais do Ocidente. Muitos argumentaram de direitos fundamentais como a liberdade de expressão.
Um dos efeitos dos ataques do 11 de Setembro de 2001 é fazer-nos lembrar que vivemos num mundo interligado. Os problemas de várias partes do mundo podem mesmo resultar em confrontos que nos afectam a todos. A solução é insistir num mundo que valorize a tolerância e a diversidade. Na Florida, alguns anos atrás, um pastor baptista queria queimar o alcorão. Naturalmente, isto irritou os muçulmanos do mundo inteiro. Muita gente condenou este pastor e o próprio Governo americano disse que tal acção iria resultar numa grande infracção. Nos Estados Unidos, há um membro da Câmara dos Representantes, a Ilhan Omar, de origem somali, que às vezes irrita muitas pessoas, que pensam que ela não dá tanta importância aos ataques do 11 de Setembro. Nisto tudo, há os que defendem fortemente o direito desta representante e outros poderem expressar-se livremente. No fim de contas, é isto que faz com que mesmo aqueles que defendem o radicalismo religioso, raramente prontificam-se para ir viver numa Teocracia...

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