Opinião

Sobre os dias de 1977 que abalaram Angola

Candido Bessa

Até que ponto somos hoje uma sociedade mais aberta e mais tolerante? A pergunta ganha cada vez mais relevo, à medida que crescem as opiniões de que alguns acontecimentos, acções e medidas antes impossíveis são hoje trazidos a público, até por quem está no poder. O 27 de Maio de 1977 é mais um destes assuntos, cuja abordagem, para muitos, vem confirmar os novos caminhos que o país está a percorrer.

Ao longo de sete páginas, o Jornal de Angola procura retratar aquele fatídico dia e mostrar como a sociedade hoje vê o assunto que abalou o país há 42 anos. Um antigo repórter e locutor de um dos programas mais ouvidos da época, um então comissário político e um ex-oficial, e actualmente general na reserva. Pessoas marcadas directamente pelo 27 de Maio de 1977 que hoje contam, na primeira pessoa, as suas vivências. São depoimentos emocionantes de quem sofreu na pele e conta o que viveu, para que situações semelhantes não aconteçam no futuro. É o caso de José Carrasquinha, então apresentador do famoso programa “Kudibangela”, preso dias depois do 27 de Maio, concretamente, no dia 30 de Maio, em casa do pai, e transferido para a Cadeia do S. Paulo.
Ou ainda Miguel Francisco, que perdeu a noiva, o apartamento e foi salvo porque, no fatídico dia, estava em casa, em convalescença; ou José Adão Fragoso, que se safou com ajuda de um primo, que, fingindo-se carrasco, deu-lhe uma valente surra, para que ninguém desconfiasse, para que não fosse ele também vítima. Há ainda o depoimento de Silva Mateus, o actual presidente da Fundação 27 de Maio, que, acusado de ter participado na sublevação, confirma-o: “considerando que autorizei que a população transpusesse a primeira cancela que dava para o Palácio, em direcção à Rádio Ecclesia, sim, participei”. E acrescenta: “não somos golpistas. Considero-me insurrecto, porque, enquanto militar, dei ordens contrárias às do Governo”.
Há ainda a visão de uma individualidade com vasta obra sobre história e culturas angolanas, Alberto Oliveira Pinto. O autor de “História de Angola: da Pré-História ao Início do Século XXI”, que aborda, à luz da História, entre outros, o papel do Presidente Agostinho Neto nos acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Ele afirma: “Ir à procura de quem tinha ou não razão, do meu ponto de vista, não faz o menor sentido. A História não é um tribunal e, por isso, a meu ver, não há nunca, em História, quem tenha ou não razão. Faz sentido, isso sim, é compreender os tempos e as conjunturas, sem nunca silenciar as memórias ou esconder ou escamotear o que quer que seja. Debater sempre, enfim. Isso aplica-se a todos os factos históricos, mesmo àqueles que têm séculos ou milénios”.
Nesta edição especial, consta ainda a visão do actual Executivo, liderado pelo Presidente João Lourenço, considerado o protagonista de uma virada histórica, ao permitir um debate livre sobre um assunto ainda ontem tido como tabu. Na voz do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Francisco Queiroz, o Governo assume reparar os danos às vítimas dos conflitos políticos e garante que as do 27 de Maio de 1977 não serão as únicas vítimas com direito a ressarcimento, de acordo com os três princípios - a “historicidade, a reconciliação e o perdão” - que vão orientar a actuação do Governo e que reflectem um “novo ciclo político” nesta matéria em Angola.
Fala-se, também, da necessidade de uma “Comissão da Verdade”, para julgar os acontecimentos. Por isso, não é estranha, neste Especial 27 de Maio de 1977, uma abordagem da experiência sul-africana. “A Comissão da Verdade e Reconciliação” foi autorizada a conceder amnistia aos acusados de atrocidades durante o Apartheid, desde que duas condições fossem cumpridas: os crimes tivessem sido motivados politicamente e que toda a verdade fosse contada pela pessoa que buscava a amnistia. Ninguém estava isento de ser acusado. Assim como cidadãos comuns, os membros das forças de segurança a todos os níveis podiam ser acusados e, igualmente, membros do Congresso Nacional Africano (ANC), o partido no poder no momento do julgamento, também poderiam ser acusados. Igualmente, qualquer sul-africano, que se sentisse vítima de violência ocorrida desde 1949 até 1994, podia apresentar-se e ser ouvido, no quadro dos procedimentos, fins e atribuições da TRC. Finalmente, os perpetradores de violência também podiam dar testemunho e pedir amnistia durante o processo.
O Especial 27 de Maio de 1977 é mais um testemunho da história. São diferentes visões que ajudam a clarificar o assunto e contribuir para o debate aberto e desapaixonado que se espera dos problemas do nosso tempo.

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