Opinião

Solidariedade selectiva

Victor Carvalho

Duas tragédias, no espaço de pouco mais de um mês, mobilizaram as atenções internacionais e criaram uma solidária vaga de fundo para acudir ao esforço de reparação dos danos causados, tanto em Moçambique, Zimbabwe e Malawi, com a passagem do ciclone “Idai”, como em França, com o incêndio que quase destruiu a icónica Catedral de Notre-Dame.

Essa solidariedade internacional, contudo, mostrou a selectividade com que se expressa consoante o destinatário ou, se preferirem, os que mais necessitam dessa mesma solidariedade.
Para Moçambique, Zimbabwe e Malawi, onde morreram mais de mil pessoas e foram destruídas aldeias inteiras e mais metade de uma cidade (Beira), o resultado dessa solidariedade saldou-se pela arrecadação de doações financeiras provenientes do Ocidente avaliadas em pouco mais de 50 milhões de dólares.
Não fosse o gesto solidário e desinteressado, traduzido no envio de equipas médicas, medicamentos e bens alimentares, por parte de alguns países africanos, com Angola e a África do Sul na linha da frente, as populações que em Moçambique, Zimbabwe e Malawi foram afectadas pelo ciclone “Idai” estariam irremediavelmente abandonadas àquilo que os poucos meios financeiros que os seus respectivos países possuem poderiam fazer.
No que toca ao incêndio que destruiu parte da Catedral de Notre-Dame, onde felizmente não há a perda de vidas humanas a lamentar, a resposta dada pelo Ocidente foi diametralmente oposta, embora a França, desde a primeira hora, tenha dito que estava em condições de custear e garantir a reabilitação da estrutura que alberga uma parte substancial da História e da cultura mundial.
A própria classe empresarial gaulesa fez, também ela, questão de garantir que estava em condições de se unir para custear as obras de reparação sem a necessidade de doações estrangeiras.
Foi por isso de modo voluntário, sem necessidade de qualquer apelo ou campanha de sensibilização, que as autoridades francesas viram ser-lhes disponibilizados mais de 600 milhões de dólares como “ajuda solidária”.
O Ocidente, em especial a União Europeia, que abrilhanta sedutores discursos para tentar atrair a atenção dos países africanos quando com eles pretende estabelecer “projectos de investimento”, que na maioria das vezes apenas servem os seus próprios interesses, voltou mais uma vez a mostrar a sua selectividade quando se trata de dar passos efectivos e práticos no sentido de ajudar, realmente, a suprir algumas necessidades objectivas do nosso continente.
É evidente que o continente africano, temos que o dizer, também tem uma grande parte da responsabilidade em relação à forma como habitualmente é tratado pelo Ocidente.
No caso concreto de Moçambique e do Zimbabwe, que conhecemos melhor, bem se pode dizer que essas responsabilidades são acrescidas pelo facto de estarem a demorar demasiado tempo a fazer os seus “trabalhos de casa”, deixando-se emaranhar em sucessivos escândalos de corrupção que envolvem quase sempre pessoas que até há não muito tempo tinham responsabilidades governativas.
Esses casos, são agravados pelo facto de se arrastarem no tempo sem que se assista a uma solução judicial credível que deixe perceber a existência de uma verdadeira vontade de mudar as coisas e tornar suficientemente transparente tanto o debate político, como a gestão das finanças públicas.
Mesmo no caso do ciclone “Idai”, tanto Moçambique como o Zimbabwe e o Malawi foram vítimas do seu próprio desleixo, por minimizarem os avisos lançados por especialistas internacionais, que alertaram atempadamente para a tragédia que se estava a avizinhar.
Aqueles dois países, por força das respectivas gestões públicas feitas em relação às ajudas internacionais, estavam como que “sancionados”, tendo-lhes sido retirados alguns dos financiamentos, que se tivessem sido anteriormente encaminhados poderiam reduzir, de modo muito significativo, o balanço final da tragédia.
Mas, é bom que se diga que nada disto justifica esta nova demonstração da tal “solidariedade selectiva”, que o Ocidente sempre usa quando estão em causa situações que envolvem o continente africano, em contraponto com as que dizem respeito a países de outras latitudes.
Quando houver um maior equilíbrio na forma de tratamento, poderemos então dizer que o Ocidente olha finalmente para África despido de qualquer intenção selectiva, o que significará que existem então as condições objectivas para o estabelecimento de um relacionamento realmente fraterno e igualitariamente solidário, tanto num sentido como no outro.

 

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