Opinião

Sopa de barbatana de tubarão

José Luís Mendonça

Domingo passado, estive a ver na televisão um anúncio que falava de uma exposição dos maiores tubarões do mundo. E a imagem que passou foi a de um tubarão debulhador, com uma cauda quase do tamanho do próprio corpo. Um bicho lindo, mas altamente perigoso, cuja barbatana caudal daria para um panelão de sopa, isso se fôssemos japoneses e hábeis cozinheiros dessa iguaria cara nos restaurantes orientais.

Aquela comprida barbatana do tubarão fez-me reflectir sobre a natureza diversificada da Vida. Há mil espécies de peixes, milhares de espécimens de flores, de quadrúpedes, até os oceanos são diversos e o próprio homem é múltiplo na sua evolução, havendo etnias, pigmentações e línguas tão díspares que o único entendimento sobre a questão de porque é que é assim tão difícil, para nós, angolanos, diversificarmos a nossa Economia, só pode estar na mente concentracionária de quem faz a gestão dos recursos escassos (que, no nosso caso, até não são assim tão escassos para uma população de 24 milhões de almas). Para haver diversidade tem de haver naturalidade, deixar fluir os recursos por todas as esferas do tecido social. Quando se concentra os recursos nas mãos de uns quantos marimbondos, o resultado é esta imagem de uma Economia voadora para os paraísos fiscais, e aqui na terra só ficam as velhas mandioqueiras do camponês pobre.
Mas aquela barbatana também me fez recordar que nós recriamos, em Angola, serviços do Estado aptos para morder o público, assim, sem mais nem menos como o tubarão, sem respeito pela nossa condição ontológica de Povo heróico e generoso.
Vejam lá que uma simples autorização de licença de construção leva um ano ou mais, com fiscais à perna, e por mais que o cidadão – isso acontece comigo ali na Administração Municipal da Ingombota, já lá vai mais de um ano com a obra embargada e a pagar um advogado – recorra às instâncias superiores (governo provincial) nem sequer uma carta-resposta recebe. Hoje, o silêncio é a arma de arremesso da nossa Administração.
Um simples despacho sobre um documento oriundo de outra repartição do Estado leva o tempo de uma gravidez! Não é possível o aparelho do Estado funcionar desta maneira. É urgente e necessário que se faça uma reciclagem dos nossos funcionários! Tem gente a trabalhar no serviço público que não sabe nada de burocracia, tem gente que nem sabe arrumar os documentos naquele sistema universal de entradas e saídas (“in” e “out”). Se formos a falar de simples arquivos de correspondência, é um Deus nos acuda!
Senhor ministro da Administração Pública, contrate assessores ingleses, que são bons na organização administrativa, contrate, meu querido chefe, porque Vossa Excelência nem sequer tem noção do que é que o comum dos cidadãos, que não conhece as altas instâncias do Poder, passa só para obter um despacho.
Digo isto por experiência própria. Por causa da licença de construção que até hoje não ma dão, passados já 12 meses. Mas que mal é que eu fiz ao Governo, eu, que pago impostos, pago água e luz e taxa de circulação, cumpro os meus deveres cívicos e patrióticos e jamais usei da prática de peculato?
Ainda há dias, tive de dar uns murros na mesa do 2º Bairro Fiscal, porque o funcionário que me estava a atender estava a gozar com a minha cara, sem respeito nenhum pelos meus cabelos brancos e pelos meus direitos de contribuinte do Estado. O dito funcionário obrigou-me a ir à Junta de Habitação, que fica no casco da rolha, lá no projecto Nova Vida, para rebuscar um documento que dera entrada na Repartição do Kinaxixe em Março deste ano. O documento não aparecia. Estávamos já em Junho. Fiz o que me pediu, fiz o trabalho do Estado e não é que ele me pôs a voltar à 2ª Repartição três vezes por semana, durante um mês inteiro, sem resultados palpáveis. O dito funcionário só começava a mexer nos papéis, à procura do meu assunto, quando eu lá fosse, a mando dele, pensando que ia levantar o meu documento, quando, na verdade, nem sabia onde o tinha posto e mandava-me regressar ao meio-dia. Quando regressava ao meio dia, mandava (ele dava ordens!) voltar às 15 horas. E quando eu lá voltava às 15h00, ele não estava no posto de trabalho. Fiquei chateado de verdade, porque tenho um horário de trabalho a cumprir, não tenho motorista nem estafeta, e não nasci para ser humilhado, sendo eu um cidadão cumpridor dos meus deveres cívicos e patrióticos. Fiquei chateado e dei um murro na mesa e gritei esbaforido como um leão. Só assim me foi passado o documento, tendo de esperar mais uma semana, e mesmo depois de reclamar à AGT.
Com o referido documento na mão, regresso à Junta de Habitação que fica ali no Nova Vida e lá está outra dor de cabeça, porque uma semana depois da entrega, o despacho não foi produzido, e depois o chefe da repartição viajou e estou neste vaivém a atravessar outro deserto, como se não tivesse mais nada para fazer, eu, que tenho de trabalhar para viver. Em Angola, não existem prazos para os actos administrativos mais simples, o despacho de documentação? E, se existem, porque é que os nossos administradores os ignoram?
Assim anda a nossa burocracia. Tipo barbatana de tubarão debulhador. Bonita por fora, mas predadora pela sua natureza. Incompatível com o desígnio do progresso e com o espírito do século XXI. Com esta maneira de gerir a papelada em Angola, não vamos chegar a qualquer tipo de desenvolvimento nacional, nem vamos, isso lhe garanto, Senhor ministro da Economia, diversificar nada. Essa boa sopa só a provamos na imaginação, porque não a sabemos cozinhar!

 

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