Opinião

Taxidermia do futuro

Adriano Mixinge

Aconteceu no passado dia 6 de Dezembro, um dia depois da vernissage da exposição “Taxidermia do Futuro”, comissariada por Bruno Leitão e Paula Nascimento e que estará patente ao público, no Museu de História Natural, em Luanda, até ao próximo dia 16 de Janeiro de 2020: aquela senhora estava sozinha, sentada num banco de madeira, com as pernas cruzadas em forma de tesoura, como se, com aquele gesto, parasse o tempo.

A exposição, que antes esteve na Bienal de Lumbumbashi 2019, tem um título que parece enigmático, as obras nem tanto. Naquela sala ampla, a senhora sozinha parecia – e depois confirmámos que sim - perguntar-se o mesmo que nós: podemos empalhar o futuro? Quais são as principais interrogações e as respostas possíveis – se é que as há - que a exposição “Taxidermia do Futuro” faz e ou sugere?
Com apenas nove obras, a saber “A história secreta das plantas”, de Alida Rodrigues, “Royal Generation I, II e III”, de Keyezua, “Beleza” e “Gémeos”, de Mónica de Miranda, “A Luta Continua. Até Quando”, de Helena Uambembe, “Ilusões, Vol II. Édipo”, de Grada Kilomba, “Disclosed Narrative/Restrained History”, de Teresa Kutala Firmino, “Havemos de Voltar”, de Kiluanji kia Henda, e “Ilundu 24”, de Januário Jano, quem visitar a exposição “Taxidermia do Futuro” tem tempo, espaço e, se se afastar discretamente dos outros visitantes, o recolhimento necessário para confrontar as obras umas com as outras, passando das histórias que contam as histórias conhecidas e daí às histórias possíveis e às histórias recriadas: o museu de herança colonial é o invólucro conotado, que activa múltiplos questionamentos pós-coloniais.
A senhora só olhou para nós quando a cumprimentámos. Surpreendeu-nos vê-la sozinha na sala porque, a priori e de um modo errado, demos por sentado que as senhoras mais velhas, com uma idade parecida a que ela pudesse ter, em Angola, normalmente, não gostam nem de arte moderna, nem de arte contemporânea. Ela contou-nos, depois, o quão importante para a sua educação tinha sido a sua avó, esfarelando os nossos preconceitos.
Como todos os visitantes, logo que entramos pusemo-nos a ver a obra de Alida Rodrigues: sob um vidro transparente, as fotografias e os postais da época colonial distribuídos em duas mesas, todos eles reconstituídos pela artista, utilizando ora o desenho de uma flor, ora o de um vegetal colado sobre o original ou, também, pintando em negro rosto de algum dos fotografados para unir e refazer a história das plantas e das pessoas fixas nos labirintos de um tempo desigual, hierarquizado e brutal.
Depois, seguindo a sequência em que percorremos a sala, vimos: em primeiro lugar, os retratos de mulher feitos pela Keyezua; em segundo, o vídeo da Mónica de Miranda, que faz um elogio da beleza “equiparando” a modelo com as esculturas greco-romanas e a natureza com a cidade; em terceiro, a sequência de nove fotografias de Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto com a silhueta da artista para desfazer tabus e ajudar a digerir melhor o passado; em quarto, duas fotografias das gémeas no Cine Karl Marx de Mónica de Miranda, que mostram a indiferença face à ruína do património arquitectónico da cidade, mas isso ainda não é tudo.
No fundo da sala, numa vídeo-instalação em dois canais, vemos a obra de Grada Kilomba. A artista lê um texto numa caixa de luz inclinada sobre a parede, mas poisada no chão, enquanto, mesmo ao lado, na parede branca, actores interpretam vários actos da peça teatral “Édipo, Rei”, de Sófocles: na história que a peça conta, o homem é a resposta do grande enigma colocado pela esfinge à Édipo, mas é o desconhecimento da maldição, escrita no seu destino futuro, a razão da sua desgraça.
Aparecem um depois de outro: o inquietante díptico de Teresa Kutala Firmino sobre o contraste das histórias conhecidas e as ocultas, o vídeo “Havemos de voltar” de Kiluanje kia Henda que, começando pelos azulejos historiados, revisita a História de Angola e fechando a exposição estão as vinte e quatro fotografias da série “Ilundu”, de Januário Jano.
Quando terminámos de ver a exposição “Taxidermia do Futuro”, aquela bela senhora e a memória da sua avó já se tinham ido embora: de certeza, ela se apercebera de que não podemos embalsamar o futuro, mas, tal como uma premonição, o podemos recriar. No fundo, o que a exposição vem dizer-nos é que teremos maior liberdade para construir o futuro se antes o podermos imaginar, desfrutando, sem absolutamente medo nenhum do nosso passado, por mais brutal que ele tenha sido, porque o tempo não pára.

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