Opinião

Telstar escandalosa

Sousa Jamba

Para não ser acusado de ser um “bajulador”, devo afirmar, de antemão, que manifestei publicamente a minha inquietação com o concurso que tinha resultado na indicação da Telstar como a quarta operadora de telefonia móvel no país. Afirmei, na minha página no Facebook, que aquilo me fez lembrar o desassossego que se tinha seguido à entrega do contrato para a construção do Aeroporto do Harare, no Zimbabwe, a uma empresa do Chipre, em 1997.

A Telstar tinha ganho um concurso não transparente e o Presidente João Lourenço merece a minha vénia, por ter anulado, em tempo oportuno, a operação, que ao que parece resultou de manobras bastante obscuras.
Há, em Angola, muitos que preferem permanecer num cinismo permanente, porque não confiam nas instituições governamentais. Este cinismo justifica a falta de ética em muitas circunstâncias: porquê é que não tomo vantagem desta minha posição, alguns raciocinam, se os chefes lá no topo não praticam o que pregam?
Muitos países com recursos naturais às vezes caem na ilusão de que a transparência não é um activo a valorizar: ao fim do dia, vai o raciocínio, os compradores vão sempre vir à procura do produto. A República Democrática do Congo tem recursos naturais avaliados em quase vinte e três triliões de dólares. Porém, é muito provável que muito em breve os congoleses lutem para encontrar emprego, saúde e mesmo educação para os seus filhos no vizinho Rwanda, país com recursos naturais muito limitados. Podemos criticar o Presidente Kagame por não tolerar qualquer oposição ao seu Governo; porém, ele não atrai figuras como Dan Gertler, o jovem Israelita que ficou bilionário comprando minas na RDC a preços baixíssimos e que revendia num ápice, fazendo lucros fenomenais. Gertler conhecia muito bem as fraquezas do regime do Presidente Kabila. Hoje, a forma como o empresário Israelita manipulou várias coisas na RDC a seu favor (e em detrimento do país) já faz parte de casos para estudo.
Um dos activos que o Rwanda tem é uma reputação de ter instituições sólidas e um sistema judiciário que, não obstante as suas falhas, tem algum mérito. Não surpreende que quando Kagame vai ao mundo à procura de investidores, ele atrai figuras sérias. Os países africanos precisam do tipo de investidores prontos a apostar em projectos que só vão dar retornos a longo prazo. Uma das questões que muitos destes investidores fazem é se se trata de países onde os contratos são levados a sério. Há países africanos onde uma figura influente pode, do nada, invalidar um contrato.
Uma das coisas que me vai surpreendendo é a adesão de muitos africanos —mesmo no interior— às novas tecnologias. Em muitos países, o acesso à Internet e mesmo ao telefone está cada vez mais barato. Isto apresenta várias possibilidades. Muitos africanos, também, já possuem celulares altamente sofisticados. Eu prevejo, brevemente, o celular a tornar-se na rádio dos nossos dias. A acessibilidade às novas tecnologias, por exemplo, irá revolucionar o ensino: um professor pode interagir com vários alunos de uma forma mais valiosa. A escola virtual já é um fenómeno que está a enraizar-se fortemente nos Estados Unidos. Em termos de medicina, na África do Sul, por exemplo, os celulares são usados para dar instruções que o doente pode filmar; o mesmo pode interagir com uma autoridade médica sem ter que viajar.
As provedoras de telecomunicações em África vão ter que ser motivadas não pelo lucro, mas por querer ajudar seriamente no desenvolvimento dos países em que estão inseridos. Não há melhor sector onde se vê claramente a razão por trás do princípio de que a competição é boa porque resulta da redução dos preços, o que beneficia amplamente o consumidor. Alguns meses atrás, eu estava no Ngombe, um bairro muito pobre na Zâmbia. Um amigo meu tinha uma escola numa área de pessoas muito pobres. Havia, lá, pequenas salas e computadores que teriam quase nenhum valor no Ocidente. O meu amigo tinha voluntários na Califórnia e vários outros estados nos Estados Unidos que preparavam lições para os jovens na Zâmbia, que eles baixavam graças aos baixíssimos preços de acesso à Internet. Lembro-me que numa aula básica de Economia, o professor nos Estados Unidos levou o seu telefone celular para um supermercado para explicar a lei da oferta e da procura. Os jovens tinham, também, aulas de Ciências em que o professor, no Reino Unido, fazia experimentações e pedia que os jovens as replicassem para entenderem bem o que se pretendia ensinar.
Há quatro provedoras de serviços de telecomunicações na Zâmbia e estas estão sempre a competir. Há investidores que estariam mais interessados em climas onde não existe nenhuma transparência, onde tudo seria feito para garantir, até, para haver entendimentos entre várias entidades para manter os preços bem altos. A falta de transparência no sector das telecomunicações, em certos casos, resulta dos empresários utilizarem fundos governamentais — que poderiam ser utilizados em outros sectores que mais precisam — para apoiar os seus empreendimentos privados.
Uma das coisas que lamentei no passado sobre Angola foi a discrepância entre o que se reclamava serem os valores que dirigiam os governantes e a realidade espalhafatosa no terreno. Como já disse, muitos angolanos estavam a cair num cinismo profundo. O Presidente João Lourenço quando proclamou a luta contra a corrupção animou muitos de nós. Mesmo nós da oposição não tínhamos como não louvar a nobre causa. Que este Presidente João Lourenço, que não tolera a corrupção nem a falta de transparência, continue com actos cada vez mais valiosos…

 

 

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