Opinião

Tempo de controle

Arlindo dos Santos

1 - A voz suave saída do telefone, parecia querer amaciar-me a alma. Tinha o efeito de uma pomada anti-inflamatória. Parecia voz de pessoa calma, serena, educada, era quase sensual a forma como o homem falava.

 Quando o dono da dita voz se apresentou e falou, fiquei na dúvida. Seria ele ou não, a pessoa que havia ligado uma hora antes? O homem, afinal era apenas um rapazinho, passou a falar comigo de um modo agressivo, intimidatório. A voz ficou desagradável, autoritária. Exigiu explicação da minha boca, e perguntou, que condimentos políticos tinha a trama da peça que ia ser estreada no palco do Nacional Cine-Teatro. Caramba! Afinal, o rapazinho era um bófia. Como me enganara a voz fininha e suave! Sugeri que comprasse bilhete, porque não na primeira fila da plateia, que assistisse ao espectáculo e tirasse ele mesmo as suas conclusões. Gabei-lhe o atrevimento e calei-lhe a voz. Depois dei-lhe as costas, como faço a todos os bufos, e nunca mais o vi.
2 – O homem inscreveu-se, assinou a ficha e tornou-se associado. Pagava rigorosamente as quotas e passou a aparecer em todos os eventos da agremiação. Era alto e elegante, dançava muito e bem, dava gosto vê-lo a deslizar, a mulher era simpática. E nós satisfeitos, porque estávamos a atingir o objectivo estratégico. Espalhávamos a mensagem e o resultado estava aí. Atingiam-se estratos importantes da sociedade. O homem exercia altas funções, mais tarde chegou ao almejado cargo de ministro. Um dia, o Preto Pimpolho, um requintado coleccionador de farras, autêntico estudioso da arte, olhando o homem de soslaio e virando-se para mim, perguntou admirado, “Não sabes que o tipo é bófia?”. Não, eu não sabia. Como havia de saber? Na minha santa ignorância, compreendi então porque sempre se iluminavam os olhos do homem quando observava os tipos que escreviam e tinham fama de falar alto, dizer o que sentiam. E porque pesquisava ele, com a ajuda dos óculos fortes que usava, todos os cantos da instalação e todos os rostos dos frequentadores. Num belo dia o Preto Pimpolho excedeu-se nos copos, enfrentou-o, disse-lhe na cara que não o suportava e endereçou-lhe o insulto maior, chamou-o de bufo. Tornou-se mau, sórdido, deixou de dançar. Nunca mais vi o homem, mas pouco tempo depois, o Preto Pimpolho também desapareceu da circulação.
3 – O batuqueiro apresentou-se no desfile com uma galinha preta na mão. Galinha viva, para afugentar o feitiço que vinha do gato pregado na cruz, símbolo do demónio castigado que desafiava a vitória quase certa do nosso grupo. Desconhecia a existência do feiticismo nas nossas fileiras. Sempre estive convicto que a nossa performance, todo o desempenho, a nossa ascensão que atrapalhava a concorrência, se devia ao puro talento da nossa juventude. Estava eu a consciencializar o batuqueiro, o homem da batida forte que marcava o dinâmico compasso da bateria, que não devia ser por aí, que o nosso caminho era outro, que era melhor soltar a galinha preta. Eis que, no meio da euforia geral, do rufar dos tambores e do guinchar da puíta, dos sons silvados da corneta que virou trompete, tudo a render homenagem à beleza da porta-bandeira e à elegância do comandante, surgiu o esbirro. Ciente da sua autoridade, foi abrindo caminho, empurrando mucamas e gentios, quis falar com o presidente, estava disposto a estragar a festa. Tentando vencer o barulho da música e do coro acertado das bailarinas e guerreiros, gritou perguntando, “mas quem é que vos financia?”. “Ouça lá meu caro senhor, este é o momento para fazer inquérito?”, perguntei-lhe, espumando da boca, fazendo entrar a minha raiva pelos olhos, chegando bem no fundo, na profundeza da alma do desgraçado. O bófia, como todo o cobarde vulgar, assustou-se, assim o demonstrou o seu súbito desaparecimento, no meio da multidão em festa. Avistei o batuqueiro e perguntei-lhe pela galinha preta. “Já foi depenada, estão a lhe dar o tratamento deveras”, respondeu num riso rasgado de orelha a orelha.
4 – O primeiro sinal veio quando iniciamos a caminhada. Quando as festas de carnaval aconteciam no São Jorge, na Ilha de Luanda. Estava eu entretido com a conversa do Eugénio que tentava convencer-me que a multa de um doce e um salgado fosse colmatada com um pincho dos Trapalhões e dois pastéis de nata de uma vendedora de ocasião, quando surgiu a Madre a segredar, “o almirante só bebe whisky velho”. Eu não gostava do almirante, nunca gostei dele, não sabia porquê. A animosidade veio a partir do dia em que o apanhei numa cena de pisar violentamente o pé do rapaz cuja namorada se recusou a dançar com ele. Como ousava a estúpida a recusar-lhe uma contradança? Precisamente a ele, o temido almirante que se dizia um activo da bófia? Queria lá eu saber da exigência do homem! Lembrei-me do Freitas e disse o que ele diria, ora, senhor almirante, não me copule! Fiz a leitura rápida do currículo e das suas credenciais e decidi. Não era obrigado a abrir precedentes. A festa era de contribuição, o lema, um por todos, todos por um. O almirante não gostou e, a partir daí, não mais vieram apoios donde costumavam vir. Proscritos! A ordem seguiu e foi cumprida e continuou como a luta. Por anos a fio.

 

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