Opinião

Teorização à volta dos sistemas ideológicos contemporâneos

Filipe Zau |*

O Dicionário de Ciências Sociais, de Alain Birou, dá-nos a conhecer que, no começo do século XIX, quando apareceu a palavra ideologia, teve, de acordo com a sua etimologia, o significado de ciência das ideias.

 Nos dias de hoje, o termo é utilizado na perspectiva da sociologia política e designa um conjunto mais ou menos coerente de ideias e de crenças que influenciam os grupos ou que legitimam as respectivas formas de acção na sociedade.
Certos autores têm a tendência de considerar a ideologia como o resultado de uma situação social das condições materiais e técnicas de existência e de influência do meio cultural nas mentalidades. A ideologia é, então, o conjunto ou sistema de ideias e representações que decorrem das principais preocupações e dos centros de interesse de um determinado grupo de homens. De entre eles, Jean-Paul Sartre refere-se à ideologia como sendo “um pensamento sintético que os factos sociais produzem em nós e que tenta por sua vez organizar esses factos na unidade mais ou menos rigorosa de uma mesma visão”.
Para outros, a ideologia, embora baseando-se na situação actual, constitui um conjunto de concepções, a representação de uma ordem que ultrapassa, transcende e por vezes contesta essa situação presente. Neste sentido, uma ideologia procura transformar a ordem existente. Pretende fazer valorizar formas de existência consideradas melhores. A partir daqui o termo toma por vezes um sentido pejorativo: os representantes de uma ordem estabelecida classificam de ideologias todas as concepções de existência e as representações de uma ordem do mundo diferentes das existentes. A ideologia é então considerada como o conjunto de ideias abstractas, mais ou menos utópicas, que se encontram deslocadas em relação aos factos reais.
Pode-se dizer que a utopia é uma forma de ideologia, mas a ideologia não se reduz à utopia. Transforma-se nesta apenas quando não corresponde de qualquer modo à representação predominante do mundo e se não se integra organicamente no mundo histórico para o fazer evoluir.
Para o marxismo a ideologia é o reflexo, por vezes mistificador na consciência dos homens, das condições sociais de existência. É o conjunto das ideias enquanto ‘criações das relações de produção’. São representações interessadas, justificações da ordem estabelecida. A ideologia é a superstrutura de impressões, de ilusões, de maneiras de pensar e de concepções de vida. É a organização deste conjunto numa teoria abstracta, inconsciente, dos seus fundamentos e dos seus pressupostos reais: as relações de produção e as condições concretas de existência material dos homens. Julga-se uma explicação universal, quando não passa da expressão da vontade de uma classe dominante com o fim de permanecer no poder. Estes conceitos estão fundamentados em diferentes obras, como: «Introdução à Política», de Maurice Duverger”; «Marx, sua vida, sua obra», de Henri Lefebure; e «Ideologia e utopia. Uma introdução à sociologia do conhecimento» de Karl Mannheim.
Karl Deutch, em «Política e Governo», a propósito dos sistemas ideológicos contemporâneos refere o seguinte: “ (…) a fim de nos orientarmos num mundo difícil e por vezes desconcertante recorremos, com frequência, a mapas. Os mapas representam uma imagem simplificada do mundo real. Qualquer mapa da costa da Nova Inglaterra tem de ser consideravelmente mais simples do que a costa propriamente dita. Qualquer diagrama da anatomia de um gato deve ser bem mais fácil de entender do que o gato; o único quadro completamente realista de um gato, como o matemático alemão Norbert Wiener uma vez afirmou, teria de ser um gato – de preferência o mesmo gato. O que os mapas são para o navegante são as ideologias para todos nós. Uma ideologia é uma imagem simplificada do mundo (…) Não pode, sem dúvida, passar completamente sem ideologias (… que são…) guias para a percepção selectiva e recuperação de informações (…).”
Ainda a este propósito, Edgar Morin, em «As grandes questões do nosso tempo», também nos informa que as ideologias, tal como os mapas, podem estar mais ou menos próximas da realidade, conforme a capacidade de integrarem novas informações, ou pelo contrário, “de se fecharem às mudanças do ambiente, criando subsistemas imunológicos relativamente eficazes.” Considerando este último caso, as ideologias assemelham-se aos toscos mapas medievais, que representavam o mundo de forma imaginativa e fantasiosa. Nem traduziam a realidade, nem tão pouco desempenhavam com rigor o papel de instrumentos de orientação para o qual foram criados.
Assim sendo, as línguas, inseridas, todas elas, no contexto do património comum da humanidade, com os sotaques que ilustram as suas diferentes linguagens ou variantes, precedem à instrumentalização político-ideológica, que, eventualmente, os seus falsos proprietários queiram (ou não) fazer individualmente como elas ou a partir delas.
* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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